Simpósio: Tradução selvagem: da tradução de línguas inventadas à retextualização intercultural

Coordenadoras:
Alai Garcia Diniz (UFSC-CAPES∕UNILA)
Dirce Waltrick do Amarante (UFSC)

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O simpósio pretende trazer à discussão as possibilidades da tradução cultural, considerando as versões para línguas inventadas elínguas de fronteiras. Também pretende discutir o conceito de adaptação multicultural, além da interculturalidade e sua possível conexão com o conceito abrangente de tradução.A estudiosa canadense Linda Hutcheon, em seu livro Uma teoria daadaptação, afirma que as adaptações são frequentemente comparadas às traduções: “assim como não há uma traduçãoliteral, não pode haver uma adaptação literal.”

Na adaptação, a transposição, inclusive dentro de uma mesma mídia, sempre significa mudança ou “reformatação”. Portanto, assim como sucede em geral na tradução, também na adaptação trabalha-se com “perdas”e “ganhos”. Hutcheon lembra, ainda, que, segundo o senso comum, na tradução, “o texto original possui autoridade e primazia axiomática, e a retórica da comparação tem sido com frequência a fidelidade e a equivalência.” No entanto, Walter Benjamin já havia matizado esse quadro de referência quando, no seu ensaio “A tarefa do tradutor”, argumentou que a tradução não é uma versão de algum significado não textual fixo que deva ser copiado ou reproduzido; na realidade, “é um engajamento com o texto original que nos permite vê-lo de diferentes formas.” Na opinião de John Dryden, a tradução se “aproximaria” também da ideia de paráfrase, já que a paráfrase seria uma “tradução com latitude, onde não se perde de vista o autor (…), mas suas palavras já não são tão fielmente seguidas quanto seu sentido, ainda que este também possa ser ampliado.”

Assim como os tradutores, os adaptadores seriam, primeiro, intérpretes, depois, criadores: “a adaptação, do ponto de vista do adaptador, é um ato de apropriação ou recuperação, e isso sempre envolve um processo duplo de interpretação e criação de algo novo”,  diz Hutcheon.

A adaptação não é “vampiresca” (a tradução também não o é): “ela não retira o sangue de sua fonte, abandonando-a para a morte ou já morta, nem é mais pálida do que a obra adaptada. Ela pode, pelo contrário, manter viva a obra anterior, dando-lhe sobrevida que esta nunca teria de outra maneira”, afirma a estudiosa canadense.

Outra perspectiva para o campo da tradução na contemporaneidade  vem a ser  o das relações de poder implícitas no ato tradutológico e a descolonização mental que  procede  à crítica da textualidade e da tradução que interferiram na construção do sujeito colonial e retextualizou os espaços. Vale mais o exemplo observado por Nair Anaya Ferreira de la UNAM  que muestra como Quahunáhuac, que em náhuatl indica a cidade de eterna primavera, transformou-se em Cuernavaca, perdendo as conotações simbólicas da região.

Outro enfoque é a tradução teatral que contem uma performance como situação de enunciação e mostra como o tradutor e o texto operam a mediação entre a cultura-fonte e a cultura-alvo que extrapola a linguagem verbal, uma vez que a encenação concreta, relativiza o trabalho tradutológico do texto escrito. Traduzir para concretizar um texto dramatúrgico  é também socorrer-se das “linguagens da cena.” (PAVIS, 2010,p.127). Deste modo, cobra especial interesse o estudo de uma série de concretizações interculturais como é o caso emblemático das obras shakespeareanas, por exemplo.

Quando se fala de línguas inventadas, fala-se em traduzi-las ou adaptá-las para uma outra língua? O portunhol selvagem, por exemplo, língua poética originária da fronteira do Brasil com o Paraguai, é um exemplo de uma língua sem “origem” (nascida do vazio deixado pelas línguas mães), podendo ser definida, grosso modo, como uma língua sempre estrangeira, que mantém seus usuários na “zona do não conhecimento”, como diz Giorgio Agamben, ou seja, na intimidade de um ser estranho e, justamente  por isso, os coloca diante do momento da criação.

Vale mencionar aqui que as traduções para o portunhol selvagem também partem do princípio da descriação da obra, ou melhor, da criação de uma nova obra, pois tomam a obra de origem quase que apenas como pretexto. Um exemplo de tradução selvagem é este haiku de Issa, cuja fonte foi o inglês: The wren/ earns his living/ noiselessly (A carriça/ ganha sua vida/ silenciosamente).

Em portunhol selvagem os versos ficaram assim, na versão de Douglas Diegues: la piedra es uma sábia/ passa la vida/ sin hablar nada.

Outro caso paradigmático de língua inventada é a que Joyce criou em seu romance Finnegans Wake (1939). O tradutor de Wake se esforça para manter junto de si um original cada vez mais distante, uma proto-imagem (Urbild), completamente perdida.   Ele lança seu olhar, como diz Walter Benjamin, num outro contexto, “sobre a ambiguidade das passagens: sua riqueza de espelhos que aumenta os espaços de maneira fabulosa e dificulta a orientação. Ora, este mundo de espelhos pode ter múltiplos significados e até mesmo uma infinidade deles – permanecendo sempre  ambíguo”.

Tradução selvagem seria, grosso modo, a tradução “espelhada”, feita conscientemente na sala de espelhos mencionada por Benjamin.

Local: Sala 209, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 Palavrões de Flaubert, palavrões de Joyce
Sergio Medeiros
(UFSC-CNPq)
Um caso leve de per-versão
Myriam Ávila
(UFMG-CNPq)
Título A tradução selvagem de Thomas Carlyle: Sartor Resartus
Ana Helena Souza
(UFSC)
13:30-15:00 Entre Ayvu Rapita, a Poesía Guarani Contemporánea e a performance
Alai Diniz
(UFSC-CAPES∕UNILA)
A tradução e a adaptação de “Finnegans Wake” para as crianças brasileira
Dirce W. Amarante
(UFSC)
Adaptação e transculturação na tradução de poemas infantis de Daniil Kharms
Aurora F. Bernardini
(USP)
A Tradução cultural na formação de mediadores culturais na UNILA
Giane da Silva Mariano Lessa
(UNILA)
15:30-17:00 Esta tradução
(não) tem dono: uma experiência de mediação intercultural numa língua selvagem
Mario R.Villalba Filho
(UNILA)
Morfologia Vegetal em Tupi-guarani
Muriel Z. de Assumpção –
(Mestr. PGET -CAPES)
Farofa Idiomática e o Desafio da Tradução
Luís Henrique
Labres
(PUCRS)
Do “carrapato” em guarani a LIBRAS na TV, uma experiência de Tradução Cultural
Bruno Ramos (UFSC)
Elaine Cristina Reis (UFSC)
Marilyn Mafra Klamt (UFSC)

RESUMOS

1) “A tradução selvagem de Thomas Carlyle: Sartor Resartus
Ana Helena Barbosa Bezerra de Souza (UFSC)
Abordaremos o papel da tradução e da traduzibilidade cultural em Sator Resartus: a vida e as opiniões de Herr Teufelsdröckh em três livros, de Thomas Carlyle. Escrito em 1830-31, esse livro possui a peculiaridade de ser uma obra ficcional, cujo objetivo maior é o de expor ideias filosóficas. As ideias e a história do filósofo alemão Diógenes Teufelsdröckh são transmitidas por um editor inglês que, ao mesmo tempo, organiza, traduz e comenta a “Filosofia das Roupas”, livro recebido do próprio pensador para que fosse divulgado junto ao público de língua inglesa. Nem romance, nem tratado filosófico, nem biografia, nem Bildungsroman, Sartor Resartus apresenta elementos de todos esses gêneros, sem permitir ao leitor, todavia, enquadrá-lo com segurança em nenhum deles. Diferentemente dos seus modelos satíricos Dom Quixote e Tristram Shandy, a obra de Thomas Carlyle cria, segundo Wolfgang Iser, um novo discurso: o discurso transcultural, passível de existir devido à traduzibilidade inerente às culturas. Verificaremos aqui como tradução e traduzibilidade atuam em diversos níveis na composição desse texto singular.

2) “UM CASO LEVE DE PER-VERSÃO”
Myriam Ávila (UFMG/CNPq)

A prática selvagem de tradução defendida por Leopoldo Maria Panero, e por ele denominada per-versão, permite que se alterem os finais dos textos literários, para “melhorá-los”. Essa prática pode ser tentadora, principalmente para os tradutores de nonsense. Onde colocar os limites da tradução se aceitos os pressupostos de Panero?

3) “Palavrões de Flaubert, palavrões de Joyce”
Sérgio Medeiros (UFSC/CNPq)

Resumo: O uso do chamado baixo calão (palavras e expressões obscenas) é a marca registrada de algumas das cartas que Flaubert enviou a amigos no século XIX. Joyce, leitor de Flaubert, recorreu a linguagem parecida em cartas que escreveu a Nora Barnacle nas primeiras décadas do século XX. Pretende-se, da perspectiva do tradutor, comparar as cartas de Flaubert com as de Joyce e discutir, a partir do seu vocabulário desabusado, o seu caráter “selvagem”.

MESA II

4) “Adaptação e transculturação na tradução de poemas infantis de Daniil Kharms”
Aurora F. Bernardini (USP)
Ainda praticamente desconhecido no Brasil Daniil Ivánovitch Iuvatchióv (1905-1942) ( Daniil Kharms), participante do movimento Oberiu e do grupo dos tchináry é hoje comparado a escritores como Franz Kafka e Samuel Beckett.
No movimento vanguardista russo ОBЭRIU (acrônimo de União da Arte Real), o primeiro depois da revolução de 1917 e da 1ª Guerra Mundial, certamente a figura de Daniil Kharms foi a que mais se salientou, alcançando suas obras poéticas, narrativas e filosóficas, nas duas últimas décadas, um espaço importante na recepção do público e da crítica especializada, na Rússia e no exterior (Cf. http://www.longarms.ru/cdcatalog/detail.php?ID=1691) . Em particular, seus textos infantis, ricos em neologismos e figuras de estranhamento, conhecidos do público russo e dialogando com os dilemas da arte no mundo contemporâneo, foram traduzidos em vários idiomas, implicando “ adaptação” e transculturação”, sendo que atualmente estou trabalhando com a tradução de alguns deles no Brasil, tradução essa que pretendo apresentar e discutir no simpósio da ABRAPT.
Fundamentação teórica e metodológica
Serão discutidos conceitos contemporâneos de tradução literária e tradução criativa, recorrendo a autores citados na bibliografia e em minha própria prática como tradutora. Metodologicamente será dada ênfase a uma obra extremamente importante de Roman Jakobson ,Novíssima poesia Russa ( 1921) ainda inédita no Brasil, no que se refere principalmente ao uso de figuras do estranhamento e à criação de uma poesia transmental.

5) “A tradução e a adaptação de ‘Finnegans Wake’ para as crianças brasileira”
Dirce Waltrick do Amarante (UFSC)
“Finnegans Wake”, de James Joyce, chega às crianças brasileiras através da sua adaptação assinada por Donaldo Schüler. Minha comunicação pretende analisar alguns aspectos dessa adaptação de um dos romances mais complexos da literatura.

6) “Entre Ayvu Rapita, a Poesía Guarani Contemporánea e a performance Mbae jara no Fortín Mbororé (Puerto Iguazú, Argentina)”
Alai Garcia Diniz (UFSC/CAPES -UNILA)
Abrigar a palavra como suspeita ou ambivalência no domínio da tradução cultural a fim de profanar fronteiras da literatura em trânsitos pós-autônomos (Ludmer) pode operar a performance como mediação cultural. E não só como suporte teórico, ou linha de pesquisa mas como parte de procedimentos interculturais. A tradução para além da interlíngua. ¿Como Ayvu Rapita (1959) dispone da imaginação ancestral oralizada da cultura guarani e em deslocamento sugerido pelo diálogo com uma antologia guarani contemporánea do Paraguai? Escancarar a discussão pos-colonialista que se concebe como especulação entre temporalidades e territorios moventes, fluidos entre imperio, antinacionalidades y lenguas… O eco das leis antiterroristas pinochetistas que vibram “Saludos Azules” de poemas mapuches? Essas e outras indagações acerca da fábrica do presente servirão de base para indagações selvagens preliminares.

7) “A Tradução cultural na formação de mediadores culturais na UNILA”
Giane da Silva Mariano Lessa (UNILA)
Nas colonizações da América ocorreram vários tipos de barbárie, contra os povos ameríndios, considerados, por muitos, junto com suas culturas como selvagens. A violência física estava vinculada à simbólica: para impor o cristianismo, era preciso aniquilar o sagrado daqueles povos. No caso andino, pela inquisição. Tais práticas envolviam processos lingüísticos, como as traduções, necessárias, para a eficácia da colonização. Aquelas fizeram parte de políticas lingüísticas que controlavam a colônia. A UNILA abriga uma proposta inovadora. O curso de Letras de Mediação Cultural é um de seus cursos e pretende formar mediadores culturais. Com disciplinas como literaturas, performance, canto etc., contém disciplinas de tradução. Pretendemos abordar como os estudos de tradução podem contribuir na formação do mediador cultural no contexto larino-americano.

MESA III
8) “Esta tradução (não) tem dono: uma experiência de mediação intercultural numa língua selvagem”
Mario Ramão Villalva Filho (UNILA)
No segundo semestre de 2012 uma oficina literária coordenada por Alcy Cheuiche na cidade de Porto Alegre resultou na elaboração de 64 contos escritos por 33 autores diferentes. Para a publicação dos contos, propôs-se a sua tradução para as duas outras línguas do Mercosul, ou seja, o guarani e o espanhol. Assim, enquanto uma tradutora em Porto Alegre verteu os textos para o espanhol, uma equipe de quatro alunos paraguaios da UNILA, em Foz do Iguaçu, ficou responsável pela tradução para a língua guarani. Nenhum desses tradutores passou por “treinamento” ou “capacitação”, mas todos tinham o guarani e o espanhol como línguas maternas, tendo realizado alguns trabalhos de tradução anteriormente. Durante o processo de tradução, dedicamos grande parte do tempo a discussões para revisar os textos traduzidos. As primeiras revisões de cada conto levavam em torno de uma hora e meia em reuniões entre cada tradutor e o revisor. Algumas das dificuldades foram atenuadas com a ajuda de dicionários bilíngues de vários autores, em versões impressas e digitais. Deste modo, o livro Esta Terra Tem Dono configura um gesto inaugural de publicação trilíngue de uma obra literária no Brasil. A tradução do título em espanhol manteve sua equivalência estrutural com o português: Esta Tierra Tiene Dueño. Por outro lado, a tradução do título para o guarani privilegiou uma questão política, retomando uma frase consagrada – Co Yvy Oguereco Yara – proclamada por Sepé Tiarajú, principal defensor dos nativos na Guerra Guaranítica (1750-1756). Nesta comunicação, pretendemos expor as peculiaridades e os desafios com os quais nos deparamos nesse processo de tradução em que foi possível mediar os fascínios e os conflitos presentes nos encontros entre as línguas.(qualquer uma delas) mas não cabia mais discutir já que era uma frase consagrada pelo tempo, aí caberia pesquisar desde quando essa frase vem se repetindo, e se realmente foi dito pelo personagem e se foi assim, poderemos pensar que talves ele mesmo já estava com a sua língua original em vias de extinção?
O tempo entre a entrega de devolução mediante a revisão do corretor variava entre uma ou duas semanas.
9) MORFOLOGIA VEGETAL EM TUPI-GUARANI
Muriel Zerbetto de Assumpção – Mestranda PGET (Bolsista CAPES)
Nomear partes de plantas é tarefa recorrente e atemporal em toda e qualquer cultura humana, principalmente pela necessidade de discriminar os diferentes usos de cada parte (GONÇALVES & LORENZI, 2007). No entanto, a terminologia empregada para tal tarefa tem sido historicamente dominada pelo grego e latim, línguas outrora dominantes na ciência e ainda amplamente utilizadas por questões de normatização. As línguas da família Tupi-Guarani, enquanto expressões de povos plenamente adaptados aos seus ambientes, deveriam também conter referências a morfologia vegetal. O objetivo deste trabalho é propor uma análise da terminologia descritiva empregada em morfologia vegetal no Brasil e identificar a possível influência que as línguas da família Tupi-Guarani têm sobre ela. Essas línguas, que tradicionalmente têm sido marginalizadas dos círculos científicos, apresentam grande influência no conhecimento botânico devido ao vasto conhecimento que seus povos têm sobre a flora brasileira. Partiremos, portanto, de uma lógica intercultural epistêmica propondo um diálogo de saberes entre os conhecimentos indígenas e a academia.

10) “Farofa Idiomática e o Desafio da Tradução”
Luís Henrique Labres (PUCRS)

Normalmente ao traduzir um dialeto regional é feita uma comparação com outra região culturalmente semelhante. E no caso de uma região totalmente distinta, tanto social quanto geograficamente, com influências de mais de cinco línguas? O dialeto a ser explorado é o Dread Talk, da Jamaica, destino antigo de escravos africanos de várias tribos e linguagens, certa vez colônia portuguesa, outrora espanhola e depois então inglesa. Com tanta riqueza linguística, apesar do inglês hoje ser a língua formal da ilha e haver um dialeto crioulo remanescente falado amplamente, foi criado um dialeto arbitrário subversivo por um determinado grupo social, o Dread Talk, um verdadeiro desafio para a tradução. Através de um estudo ideológico e cultural, passando pela neologia, variação linguística e morfologia, almeja-se escrutinizar tal dialeto e, tomando-o por exemplo, analisar as possibilidades de tradução de casos semelhantes: tradução, adaptação ou até mesmo a criação de um dialeto semelhante na língua alvo, partindo talvez de um entendimento ideológico paralelo ao do dialeto. Ao final estabelecer a(s) melhor(es) forma(s) para que se incorpore a mensagem sem perder seus aspectos socioculturais.

11) “Do ‘carrapato’ em guarani a LIBRAS na TV, uma experiência de Tradução Cultural”
Bruno Ramos (UFSC), Elaine Cristina Reis (UFSC) e Marilyn Mafra Klamt (UFSC)
A presente proposta pretende buscar relações recíprocas e dialógicas entre o poema Garrapata (Carrapato) de Mario Rubén Alvarez, compilado por Susy Delgado em Poesía Guaraní Contemporánea e a tradução cultural do mesmo poema feita em LIBRAS – Língua brasileira de Sinais. Essa perspectiva é criada a partir da ideia de que o poema Garrapata /Carrapato surge como uma crítica do autor sobre aquele que explora o outro. O carrapato é uma metáfora para o homem capitalista, nesse sentido há também uma relação política, em que são discutidas relações de poder e ideias de exploração: o homem que vê o poder acima de tudo. O carrapato – inseto que suga pode ser simbólico tanto para a cultura indígena – no caso a guarani, como para a cultura surda, no sentido de ser um inseto que serve de metáfora para um sugador que incomoda: os brancos/ouvintes usam a cultura, a língua indígena/LIBRAS como um dado deles. Ampliando essa perspectiva, para a referida disciplina foi apresentada a performance do poema Garrapata (Carrapato), com a sua leitura em espanhol, em paralelo com a leitura de palavras-chave do poema traduzidas ao português e concomitantemente com a interpretação apresentada em LIBRAS. A partir da performance surgiu a ideia de gravar um vídeo educativo com o objetivo de transmiti-lo na TV UFSC. O mencionado vídeo terá aproximadamente 5 min. No qual serão exibidos dados coletados sobre a cultura surda, fazendo um paralelo com a cultura guarani, mas cujo foco é a performance do poema Garrapata (Carrapato) em LIBRAS. Como a proposta deste estudo é fundamentada na performance, no sentido de que ela é uma tradução cultural, utilizaremos como fonte de pesquisa o livro Ayvu Rapyta de León Cadogán; Siting Translation: History, Post-Structuralism, and the Colonial Context de Tejaswini Niranjana; Exploring Translation Theories, de Anthony Pym e O Teatro no Cruzamento de Culturas, de Patrice Pavis. No livro Ayvu Rapyta buscaremos maior compreensão da cultura guarani; nas abordagens de Niranjana e Pym os conceitos de tradução. Niranjana na introdução de sua tese discute relações de poder e afirma que dentro dos estudos culturais, só compreenderemos uma tradução analisando o contexto, desconstruindo a linguagem do colonialismo para que a tradução seja relevante, pois segundo a autora um dos pressupostos do discurso colonial é mostrar o sujeito colonizado como imutável. Anthony Pym faz uma resenha dos percussores da tradução cultural para colocá-la como um novo paradigma para o novo século. Para o autor a tradução cultural é como atividade geral de comunicação entre diferentes grupos culturais, não discute textos e sim utiliza a tradução como metáfora para explicar os processos permeados pelas atividades humanas. Patrice Pavis considera a tradução intergestual e intercultural como uma especificidade da tradução teatral, pois no teatro comunicam-se e confrontam-se culturas heterogêneas separadas pelo espaço e pelo tempo. Tal comunicação cultural ocorre no momento hermenêutico em que o espectador questiona a cultura fonte e em seguida se apropria dela. A tradução teatral não está nas palavras, mas nos gestos, nos corpos, nas entonações, nesse sentido o ator é um tradutor, um mediador entre duas línguas, entre duas culturas. Nesta proposta de trabalho quem faz a mediação entre o texto guarani e a performance em LIBRAS é um o performer surdo, o que reitera Pavis quando afirma “comunicação intercultural serve-se antes de mais nada do corpo e do gesto para evocar as ligações e as diferenças”. A mediação entre a cultura fonte e a cultura alvo utiliza a tradução intercultural e intergestual como estratégia para salientar as aproximações e as diferenças entre essas duas culturas através do corpo, do gesto.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

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