Simpósio: Tradução Literária

Coordenadores:
Guilherme Braga (PUC-RS )
Rosalia Garcia (UFRGS)

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Em vista do enorme volume de material traduzido hoje em dia, é natural que os estudos da tradução vivam um período de franca expansão como campo de estudos independente. Dilemas tradutórios perenes, como o problema da estrangeirização vs. domesticação, os problemas suscitados pelas variações entre os lastros culturais associados a diferentes idiomas e a melhor forma de se reproduzir o efeito de um texto em outra língua e em outra cultura, presentes em especial durante a tradução de obras literárias, vêm sendo reavaliados e abordados a partir de perspectivas diferentes e por vezes inusitadas, o que não raro gera debates férteis e provocadores para os estudiosos do tema.

Neste simpósio serão apresentados trabalhos que versem sobre a teoria e a prática da tradução literária, a interface entre a tradução literária e outras disciplinas relacionadas, as relações entre a tradução literária e a cadeia de produção do livro, a recepção de obras literárias traduzidas, a tradução literária e questões de autoria, os limites entre tradução literária e adaptação e quaisquer modalidades de tradução intersemiótica que envolvam a literatura.

 

Local: Sala 204, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00- 11:30
13:30-15:00 Versões brasileiras de Alice no País das Maravilhas
Cynthia Costa
(PGET / UFSC)
José Paulo Paes e a antologia de poemas traduzidos: um empenho crítico
Paulo Roberto Barreto Caetano
(UFMG)
Análise da Tradução do Discurso Oral em Obras Literárias no Brasil: O Caso de Agatha Chistie
Vanessa Lopes Lourenço Hanes
(UFSC)
Climbie em Português Estratégias de Reprodução do Exotismo e da Ironia de Bernard Dadié
Anasthasie Adjoua Angoran Brou
(Universidade Felix Houphouet Boigny Abidjan)
“Andrea, ma così chi ti legge?” – A linguagem de Camilleri e suas (im)possíveis traduções
Solange Peixe Pinheiro de Carvalho
(USP)
15:30-17:00 Estrangeirização e domesticação: indo além de mais uma dicotomia
Reginaldo Francisco
As mais ínfimas relações entre a criação e a tradução na obra de Herberto Helder
Rafaella Dias Fernandez
(PGEL/UFPA)
(Re) significando as teias do discurso nas crônicas urbanas de Lemebel
Alejandra Rojas
(Universidade Federal da Fronteira Sul)
A tradução de dialetos e falares atípicos – abordagens possíveis
Guilherme Braga
(PUCRS)
A versão para o inglês de Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto – utilização de teorias culturais e narratologia
Rosalia Neumann Garcia
(UFRGS)

RESUMOS

1.Versões brasileiras de Alice no País das Maravilhas
Cynthia Costa, doutoranda da (PGET / UFSC)
Pretende-se discutir as transformações, bastante diversas entre si, promovidas em Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Alice’s Adventures in Wonderland, de Lewis Carroll; Inglaterra, 1865) por dois autores nacionais, Monteiro Lobato e Sebastião Uchôa Leite, em suas respectivas traduções. Baseando-se em teorias modernistas da tradução – sobretudo, de Walter Benjamin e Haroldo de Campos, que focaram na tradução como transcriação – e no procedimento de comparação, a discussão aborda o confronto entre as traduções e o texto-fonte à luz do desafio de recriar a linguagem carrolliana em seus trocadilhos, ludismos e nonsense.
2. José Paulo Paes e a antologia de poemas traduzidos: um empenho crítico
Paulo Roberto Barreto Caetano (UFMG)

A comunicação discutirá como a antologia Poesia erótica em tradução, organizada e traduzida por José Paulo Paes, funciona como um “empenho crítico” (nas palavras do autor paulista), devido ao seu caráter seletivo. Para realizar tal tarefa, será debatido como crítica e memória e se relacionam, à luz de autores como Erza Pound e Paul Ricoeur. A noção de crítica como instância que separa, discerne, julga se relaciona com uma abordagem ricoeuriana acerca de memória que seria um elemento procurado, uma busca (ativa) por uma imagem do passado. Tais perspectivas dialogam com o fato de Paes abordar na Nota Liminar desse livro a questão do suposto esquecimento (editorial, acadêmico) por que passam vários dos objetos por ele trabalhados.

3. Análise da Tradução do Discurso Oral em Obras Literárias no Brasil: O Caso de Agatha Christie
Vanessa Lopes Lourenço Hanes (UFSC)
O foco desta comunicação é a maneira como representações escritas do discurso oral são apresentadas em obras literárias traduzidas no Brasil. Por conta da vasta presença de obras escritas originalmente em língua inglesa dentre as traduções comercializadas no país, este trabalho contempla o par de línguas inglês-português brasileiro. Representações do discurso oral são presentes em diversas obras literárias da língua inglesa, e muitos questionamentos surgem ao considerar as traduções do discurso dos personagens, incluindo elementos referentes às diferenças encontradas nos registros empregados, à proximidade entre o discurso oral em formato escrito usado nas traduções brasileiras e o português falado no cotidiano, dentre outros. Ao definir um corpus para esta pesquisa, as obras de Agatha Christie foram selecionadas devido à sua relevância no mercado editorial brasileiro. Espera-se que as obras de Christie sirvam para ilustrar sistematicamente como certas características chave do discurso oral são representadas, servindo como primeiro passo para esclarecer as regularidades na abordagem brasileira da tradução do discurso oral em obras literárias.
4. Climbie em Português: Estratégias de Reprodução Do Exotismo E da Ironia de Bernard Dadié
Dra Anasthasie Adjoua Angoran Brou (Universidade Felix Houphouet Boigny Abidjan)
CLIMBIÉ (1932) é uma das narrativas autobiográficas de Bernard Blin Dadié(1916) , escritor da Costa do Marfim. Esta obra foi traduzida para o português por Maria da Natividade Petit em 1982 ou seja quase trinta anos depois da sua publicação em língua francesa. Climbié o protagonista passeia o olhar e a memória nas cenas do cotidiano de Grand-Bassam, cidade portuária do início do século XX e conduz o leitor. Climbié assim como qualquer texto de literatura africana reflete a especificidade estética das obras assim rotuladas como diz Akakuru no artigo Réflexion sur la littérature africaine traduite : Or, l’esthétique du texte littéraire africain se complique par des recours aux idiolectes et idiomes inspirés par l’ethnie, aux translittérations, aux calques de tous ordres, aux archaïsmes, relevant de l’histoire particulière de l’auteur. Nesta comunicação procuro pôr em relevo alguns artífices usados pela tradutora para recriar as particularidades estéticas do texto literário africano apresentadas nesta narrativa, comparando-os eventualmente com as do autor.
5. “Andrea, ma così chi ti legge?” – A linguagem de Camilleri e suas (im)possíveis traduções
Solange Peixe Pinheiro de Carvalho (USP)
A pergunta acima foi feita por Leonardo Sciascia após ler a primeira obra de Camilleri, Un filo di fumo, na qual já aparece a lingua mista (Sofri, 2000) que passaria a ser a “marca registrada” do autor siciliano. Característica que remete à diversidade linguística e cultural italiana, ela suscita uma pergunta: como transmitir para leitores estrangeiros o italiano “sicilianizado” do escritor? Considerando, entre outros, os estudos de Chapdelaine (1994); Lane-Mercier (1997) e Morvan (1994), que abordam as possibilidades de tradução de variantes não padrão, observamos que esses textos não permitem uma teoria globalizante: cada caso tem uma abordagem única, que considere, como postulou Pym, “what varieties are doing in cultural products”. Partindo desse embasamento teórico, analisaremos algumas estratégias de tradução das obras de Camilleri em português e em outras línguas, para verificar até que ponto é (im)possível mostrar para leitores estrangeiros a “marca registrada” do autor.
6. Estrangeirização e domesticação: indo além de mais uma dicotomia
Reginaldo Francisco
O teórico e crítico de tradução francês Antoine Berman afirma que as traduções literárias em suas formas tradicionais e dominantes representam um ato culturalmente etnocêntrico, isto é, que traz tudo à sua própria cultura, às suas normas e valores, buscando fazer com que se esqueça que se trata de uma tradução. Para se opor a essa prática dominante, o autor propõe uma tradução que não esconda o elemento estrangeiro na obra traduzida, e que para isso seja fiel à “letra” (lettre) do original. Essa oposição é muito conhecida também nos termos utilizados pelo teórico norte-americano Lawrence Venuti, que fala em “domesticação” (domestication) e “estrangeirização” (foreignization) para se referir respectivamente às práticas tradutórias que ocultam as diferenças culturais, adaptando tudo à cultura de chegada, e àquelas que mantêm a estranheza do texto original e da cultura de partida. Muitos estudos partem das reflexões de um desses autores, ou de ambos, para pensar a tradução como dividida nessas duas possibilidades. Entretanto, assim como com dicotomias mais antigas (literal x livre, correspondência formal x dinâmica, etc.), também estas não são duas categorias estanques, podendo haver diferentes combinações de ambas na tradução de um mesmo texto, além de estratégias híbridas ou soluções que não representam nem uma nem outra posição. Neste trabalho discuto a problematização dessa dicotomia, incluindo exemplos de minha tradução do italiano para o português do livro infantojuvenil O diário de Gian Burrasca, de Luigi Bertelli (Vamba).
7. As mais ínfimas relações entre a criação e a tradução na obra de Herberto Helder
Rafaella Dias Fernandez (Mestranda em Estudos Literários-UFPA)
Herberto Helder em seus livros sobre apropriações realizadas de outros poetas não utiliza o termo tradução, e sim “poemas mudados para português”. Esta forma peculiar de definir o trabalho tradutório já aponta para o gesto de traduzir como um ato de criação literária. É importante compreender que a tradução é um tipo de metamorfose, pois para Herberto Helder a metamorfose é a lei que preside toda a criação artística e ela irá ressignificar toda a atividade tradutória. O fato de a obra estar sempre disposta à tradução e a recriação revela a não-fixação do objeto poético, o que é essencial para a base da metamorfose. Com isto, o objetivo do presente trabalho será refletir acerca do trabalho criador do tradutor e das relações entre a tradução e a metamorfose e como podemos encontrá-las dispostas na obra poética de Herberto Helder.
8. (Re) significando as teias do discurso nas crônicas urbanas de Lemebel
Alejandra Rojas (Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS)
A tradução das crônicas de Pedro Lemebel, escritor chileno, tem me levado por um labirinto de possibilidades que se traduzem aqui em um relato sobre essa experiência tradutória que me ajuda a tecer algumas reflexões de ordem teóricas e práticas sobre a prosa poética de Lemebel. Se o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu, sendo a teia uma metáfora da cultura, o conceito de tradução é essencialmente semiótico. Portanto a tarefa do tradutor é interpretar e (re)significar essa teia dentro de outro sistema de signos. O dilema tradutório, neste caso, se condensa no modo de nomear o que outros discursos apagam, e no encontro entre duas formas discursivas diferentes: a literária e a política. Dentro desse contexto/teia, o tradutor deverá mover-se sem romper os delicados fios que a conformam. No entanto, essas reflexões estão alinhavadas, não só com os aspectos culturais que documentam e permeiam a obra, mas, também, com o respeito ao sujeito criador que nos conecta através de sua narrativa com a pulsão vital e com a emoção estética.
9. A tradução de dialetos e falares atípicos – abordagens possíveis
Guilherme Braga (PUCRS)
A tradução de dialetos e marcas regionais típicas da língua falada em diálogos literários suscita uma série de questões importantes para a tradução de obras ficcionais. Esta comunicação dispôe-se a apresentar um breve panorama sobre as diferentes abordagens possíveis para lidar com esse tipo de texto, bem como a apresentar exemplos práticos desse tipo de tradução.” O título pode ser “A tradução de dialetos e falares atípicos — abordagens possíveis.

10. A versão para o inglês de Contos Gauchescos de Simões Lopes Neto – utilização de teorias culturais e narratologia
Rosalia Neumann Garcia (UFRGS)
O presente trabalho visa apresentar a versão para o inglês do conto Trezentas Onças da obra Contos Gauchescos de João Simões Lopes Neto, escritor sul-riograndense do início do século XX, cuja obra, de certo modo, estabeleceu no sistema literário brasileiro o mito do gaúcho. Utilizam-se duas frentes teóricas que se complementam e auxiliam o tradutor em seu trabalho de tradução: por um lado, teorias que tratam de questões culturais em tradução (Teoria dos Polissistemas Literários; classificação de palavras culturais de Newmark; a persepctiva de tradução cultural de Trivedi) e por outro, o estudo de narratologia de Mieke Bal, cuja reflexão a respeito de recursos narrativos é fundamental para que o tradutor possa lidar com o estilo narrativo do autor. Além disso, utiliza-se o esquema de Emer O´Sullivan, que estendeu o diagrama de Seymour Chatman, no que tange os elementos envolvidos na leitura de um texto. Fica claro que a versão para o inglês de um autor considerado regionalista e difícil, por utilizar expressões pouco conhecidas no vernáculo nacional como um todo, pode ser um recurso que facilita a leitura da obra do autor de várias formas. Primeiramente, o trabalho de verter a obra para o inglês pode revelar nuances de estilo e escolha lexical que esclarecem ao leitor/tradutor os recursos narrativos de Simões Lopes Neto. Segundo, expor tal obra para um público mais abrangente revela as qualidades ao mesmo tempo regionais e universais do autor e da vida riograndense.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

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2 thoughts on “Simpósio: Tradução Literária

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