Simpósio: Tradução e migração

Coordenadores:
Philippe Humblé (Vrije Universiteit Brussel)
Werner Heidermann (UFSC)

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Num mundo onde as fronteiras se mostram cada vez mais permeáveis e onde as pressões migratórias, por razões econômicas ou politicas, se revelam irresistíveis, a literatura viaja junto com os migrantes. A literatura hoje também é feita por quem não domina, ou domina mal, a língua do país onde vive. Há marroquinos escrevendo em francês e em holandês, turcos escrevendo em alemão, indianos e paquistaneses escrevendo em inglês, etc. A língua deixou de ser a propriedade de uma cultura e as culturas já não se expressam através de uma língua em particular.

A situação na Europa hoje é bastante parecida com a situação que o Brasil viveu há mais de cem anos atrás. Como país de imigração o Brasil produziu, no século XX, autores que escreveram literatura numa língua que não era a materna, ou a partir de uma cultura que não era a brasileira. Nesse sentido, esses autores se autotraduziram e algumas obras ficaram marcadas pela outra língua e pela cultura estrangeira.

Por outro lado, há também diferenças significativas entre os escritos de autores migrantes do Brasil e da Europa. A linguagem dos autores imigrantes europeus não é sempre gramatical e acaba sendo uma mistura poética de ‘linguagem turca’, por exemplo, com diferentes tipos de alemão, inglês, francês. O alemão turco Şenocak Zafer chama isso da “dritte Sprache” (terceira linguagem) da literatura da imigração. Ao ‘literarizar’ essa terceira linguagem, surge um novo mundo de associações que é simultaneamente alienante e preocupante.

Susan Bassnett e Trivedi Harish, por sua vez, usam o conceito de ‘tradução’ no sentido metafórico: em primeiro lugar, como um tipo de transação intralinguística (a tradução cultural) que traduz as especificidades culturais de uma forma nova, de maneira que a supremacia cultural, o essencialismo da cultura ocidental, ficam dessacralisados. Em segundo lugar, esses autores usam o conceito de tradução de uma maneira mais metafórica ainda, como a imagem de um deslocamento espacial.

Essas práticas sempre levam a uma simetria de poder que os estudos de tradução devem analisar e que têm tudo a ver com o ‘canibalismo’ brasileiro. Será que a ‘antropofagia’ brasileira fez com que a resposta a uma situação similar fosse diferente?

 

Local: Sala DRUMMOND, CCE, bloco B

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 Sôbô, de Tatsuzô Ishikawa – a imigração dentro da literatura japonesa
Mônica Setuyo Okamoto
(Universidade Federal do Paraná, Curitiba)
Os caminhos de mão dupla na tradução – as sobrevidas de obras literárias por meio da tradução
Neide Hissae Nagae
(Universidade de São Paulo)
Tradução religiosa em contexto: imigração e religiões japonesas no Brasil
Ronan Alves Pereira
(Universidade de Brasília)
Traços migratórios e tradução cultural na escrita de Herta Müller e Yoko Tawada
Rosvitha Friesen Blume
(Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis)
13:30-15:00 Revisitando o “alemão de emigrantes” de Albert Vigoleis Thelen
Orlando Grossegesse
(Universidade do Minho, Braga)
Migration and ‘Halbsprache’: Metalinguistic Markings of Translative Writing in Osman Engin’s Literary Texts
Arvi Sepp (Free University of Brussels/University of Antwerp)
O emigrante culto na imigração rústica: Alexander Lenard
Philippe Humblé
(Vrije Universiteit Brussel)
Werner Heidermann
(Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis)
Hans Henny Jahnn – fugitivo, exilado, migrante
Marcus Tulius Franco Moraes
(Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis)
15:30-17:00 A tradução como contato de línguas
Sabine Gorovitz
(Universidade de Brasília)
A imigração de marcas chinesas no Brasil
Ye Li
(Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis)
Migrante e tradutor/intérprete – a atuação como tradutor/intérprete do árabe no Brasil
Manhal Kasouha
(ex-Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis)

RESUMOS

1) A imigração de marcas chinesas no Brasil
Ye Li /Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis
Hoje em dia a migração é cada vez mais comum e as fronteiras estão cada vez menos claras. No passado, a palavra migração estava diretamente ligada à mudança da residência de pessoas. Todavia, no mundo atual, no qual a cooperação econômica internacional é uma realidade de todos os países, o que está migrando, além de pessoas e culturas, são também os produtos e as suas marcas. Agora no Brasil há cada vez mais produtos chineses e existem muito mais marcas chinesas que estão procurando parcerias brasileiras para tentar entrar no mercado brasileiro ou até iniciar produção local, tais como Foton e Geely. O presente trabalho tem como objetivo explorar a função da tradução na imigração das marcas chinesas no Brasil. Serão apresentados resultados de pesquisas relativas às políticas empresariais dos fabricantes chineses sobre a definição da denominação das suas marcas no exterior.

2) A tradução como contato de línguas
Sabine Gorovitz/Universidade de Brasília
No contexto de globalização, que não é apenas um fenômeno social, econômico e político, mas também linguístico, diversas dinâmicas são acompanhadas por um movimento de tradução sem precedentes. A necessidade de internacionalização dos conteúdos regional e localmente produzidos acarretou, por meio dos processos tradutórios, uma re-contextualização cultural e geopolítica dos fatos e das relações que culmina com uma espécie de “babelização do mundo” (Dominique Wolton, 2008: 3). Por isso, para além da definição simplista de tradução como processo que possibilita a passagem de uma língua para outra, a operação tradutória tem por vocação colocar línguas, homens, normas e realidades em relação. Assim, no exato momento da tradução, poder-se-ia dizer que as duas línguas de enunciação estão em contato. Mas o que significa esse contato? Onde ele ocorre? Seria uma situação de contato tal como ela é definida pela sociolinguística? Sejam quais forem as respostas, é possível pensarmos a tradução como um processo contrastivo que revela as normas e representações que as regem de ambos os lados do processo.

3) Hans Henny Jahnn, fugitivo, exilado, migrante
Marcus Tulius Franco Moraes/Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis
Escapando das filas de recrutamento para as frentes de batalha e driblando a perseguição nazista, Hans Henny Jahnn (1894-1959), um dos mais profícuos escritores do século XX, fugiu da Alemanha em direção à Noruega e passou a se ocupar com Literatura, Música e Arquitetura. Arrancado de todos os seus vínculos afetivos, linguísticos e culturais, sua emigração foi, antes, muito mais a possibilidade de ele criar um lugar, o “local da cultura” (Bhabha, 1994); ou seja, Jahnn dispôs-se à tarefa de percorrer um caminho singular e materializar a formação visionária de suas experiências pessoais mais profundas, através da elaboração de um programa de sobre-vivência. Jahnn elege a literatura como o principal ato de sobrevivência cultural. Esta comunicação lança luz sobre a produção literária de Jahnn, principalmente, durante os anos de exílio e à sua tradução para a língua portuguesa.

4) Migrante e tradutor/intérprete – a atuação como tradutor/intérprete do árabe no Brasil
Manhal Kasouha/ex-Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis
Um relato prático! Sou sírio e cheguei ao Brasil em 1998. Eu iniciei os meus estudos aqui na UFSC, no Curso de Letras/Francês que conclui em 2007. Paralelamente com os meus estudos, eu comecei a trabalhar com a tradução e tradução-interpretação devido aos meus bons conhecimentos em árabe (língua materna) e razoáveis em russo, pois eu me graduei na Faculdade de Engenharia Mecânica na Rússia. O título da minha dissertação de mestrado, defendida na UFSC, é “Os clássicos árabes da teoria da tradução”. Após a conclusão do mestrado, em 2009, eu fui nomeado pela junta comercial de Santa Catarina, como tradutor público ad hoc. O aspecto cultural é muito relevante na tradução e interpretação, pois o tradutor tem que levar em consideração os costumes e tradições do público alvo. Especialmente quando se trabalha com duas culturas tão distintas, como a árabe e a ocidental.

5) Migration and ‘Halbsprache’: Metalinguistic Markings of Translative Writing in Osman Engin’s Literary Texts

Arvi Sepp/Free University of Brussels/University of Antwerp

Jacques Derrida writes in his essay « qu’est-ce qu’une traduction ‘relevante’ » the following about metalinguistic markings: « ‘autrement dit’, ‘en d’autres termes’, ‘in other words’, c’est la clause qui annonce silencieusement toute traduction, du moins qu’elle se désigne elle-même comme traduction. » According to Derrida, metalinguistic comments bring about the illusion of another language at the horizon of the source language. In the German-Turkish novelist Osman Engin’s works Deutschling (1985) and Oberkanakengeil (2003), in addition to the aforementioned metalinguistic markings in the hybridized ‘Halbsprache’ of the author, the constant alternation between object level and meta level plays an important part, resulting in the frequent consideration of the mother tongue’s significance and the issue of intralingual translation. In Deutschling and Oberkanakengeil, both Turkish and German act as reference systems and the strategy of translatory mimicry appears to have a subversive effect at the imagery level. This mimicry is an integral element of the narrative structure of Engin’s works and becomes a stylistic singularity, which unbalances the German language, and undermines it in its naturalness. The author’s translation practices between languages and cultures, which do not appear to merge interculturally but seem to be in constant conflict with each other, can be considered an accumulation of transcultural experiences.

6) O emigrante culto na imigração rústica: Alexander Lenard
Philippe Humblé, Vrije Universiteit Brussel; Werner Heidermann, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis
Die Kuh auf dem Bast (1963) é uma série de relatos não-ficcionais da autoria de Alexander Lenard, médico húngaro, refugiado de guerra, um europeu em Santa Catarina. O título trivial e lúdico engana. A biografia, na verdade, é um quadro valioso de uma época da história catarinense que já está caindo no esquecimento. O livro é uma coletânea de observações aparentemente cotidianas de um médico no interior. Através do tom melancólico com comentários lacónicos, no entanto, entra uma sabedoria que transpassa a simples descrição dos acontecimentos dentro do vilarejo chamado Dona Irma, nome sutilmente disfarçado da comunidade real com o nome de Dona Emma. Colocações em forma de aforismos trazem um charme especial. Citação: “Antes de que o emigrante possa viver do que ele sabe fazer, ele tem que viver do que ele tem.” Lenard tentou resguardar histórias dos seus pacientes; assim fazendo, escreveu um documento da memória, um documento, aliás, por sua vez, esquecido. Nem tradução para o português tem! Os autores da comunicação se propõem analisar a ‘tradução cultural’ que o escritor faz do seu ambiente, com o intuito de descobrir de quê maneira foi feita essa adaptação, aliás bastante bastante atípica no mundo da migração de hoje. Trata-se, com efeito, de um europeu culto observando um ambiente migratório que seria atualmente excepcional: alemães como imigrantes, e ainda na condição de analfabetos. Este livro é um documento único de uma tradução cultural, vista de um ângulo inesperado.

7) Os caminhos de mão dupla na tradução – as sobrevidas de obras literárias por meio da tradução
Neide Hissae Nagae/Universidade de São Paulo
O Brasil, como país que adotou uma política de imigração e recebeu um contingente significativo de pessoas provenientes das mais diversas partes do mundo, propiciou o desenvolvimento de grupos que preservaram a língua e os costumes trazidos de suas origens. Os japoneses que aqui chegaram a partir de 1908, sobretudo os nativos e os denominados jun’nisei – falantes nativos que vieram na fase da infância para a adolescência, – e seus descendentes somaram uma produção literária significativa. Além do já conhecido haicai, há os poemas tanka, um pouco menos conhecido entre nós, mas que mantém, por exemplo, a revista Yashiju (Coqueiro) que continua a ser publicada bimestralmente desde 1934 e obras em prosa, estas, em número mais reduzido. Esta comunicação, portanto, propõe-se a apresentar uma reflexão sobre tais produções, por meio da obra de Ikuko Onotera que reúne suas criações em prosa e poesia, intitulada Tokiori no Shiori (Momentos, ocasiões) publicada no Brasil em língua japonesa em 1986 inserindo-a nesse contexto peculiar de transposição de fronteiras.

8) Revisitando o «alemão de emigrantes» de Albert Vigoleis Thelen
Orlando Grossegesse/Universidade do Minho, Braga/Portugal
Hans Werner Richter, líder da «Gruppe 47», detectou no romance Die Insel des zweiten Gesichts (1953) marcas dum «alemão de emigrantes» [Emigrantendeutsch], desnecessário para a reconstrução da literatura alemã pós-guerra. O que naquela altura significava uma valorização negativa, como perda do pleno domínio de alemão, suscita hoje em dia interesse no âmbito da discussão atual da «terceira linguagem» (Şenocak Zafer). Em vez de autor imigrante que escreve na língua do país de acolhimento, portanto na língua da aprendizagem, Albert Vigoleis Thelen (1903-89) é um autor cuja produção literária e ensaística ficou marcada por etapas de emigração, fugindo do regime nazi, e, portanto, ao nível da língua, pela alienação ou ‘desaprendizagem’. Esta vivência contribuiu para o desenvolvimento duma linguagem literária própria entre arcaísmos e neologismos, integrando o léxico de seis línguas, sem renegar o estilo de oralidade característico do Baixo Reno limítrofe aos Países Baixos, lugar de infância e juventude.

9) Sôbô, de Tatsuzô Ishikawa – A imigração dentro da literatura japonesa
Mônica Setuyo Okamoto/Universidade Federal do Paraná, Curitiba
A sociedade japonesa, nas décadas de 1920 e 1930, viveu sob a pressão dos acontecimentos sociais e políticos ocorridos desde a reabertura do Japão ao Ocidente em 1868. Para reverter essa situação, o governo japonês reforçou a sua política de expansão colonialista, aumentou o seu poderio militar, incentivou a imigração e expandiu a xenofobia. Muitos escritores e intelectuais japoneses chegaram a endossar o ultranacionalismo do governo e a fazer propagandas políticas em suas obras. Foi dentro desse contexto histórico específico que o romance Sôbô (Povo) de Ishikawa Tatsuzo foi lançado em 1933. O autor derrubou as convenções literárias japonesas da época ao tocar profundamente na história oficial dos imigrantes nipônicos que vieram para o Brasil nas primeiras décadas do século XX. Feitas essas considerações, em 2008 em função da comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil, a obra Sôbô foi finalmente traduzida e publicada no Brasil. Pretende-se explorar o processo pelo qual a obra japonesa da década de 1930, apontada como marxista, foi transferida para a cultura nipo-brasileira do século XXI.

10) Traços migratórios e tradução cultural na escrita de Herta Müller e Yoko Tawada
Rosvitha Friesen Blume/Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis
Nessa comunicação pretendo mostrar, em que medida as escritoras Herta Müller e Yoko Tawada, em sua condição de imigrantes na Alemanha, apresentam traços de estrangeiridade e de tradução cultural em suas obras. A primeira, autora romeno-alemã que sempre escreveu somente em alemão, embora fosse nascida e vivesse na Romênia até os 33 anos de idade. A segunda, japonesa radicada na Alemanha desde os seus 22 anos de idade, escreve em japonês e em alemão. Procurarei inquirir o que há de romeno ou de romeno-alemão nos textos de Müller e como é esse olhar da autora sobre a cultura alemã ‘hegemônica’. Do mesmo modo, procurarei investigar o que há de japonês nos textos alemães de Tawada, ou, de que maneira se traduz em seus textos alemães a cultura oriental da escritora.

11) Tradução religiosa em contexto: imigração e religiões japonesas no Brasil
Ronan Alves Pereira/Universidade de Brasília
Práticas e crenças religiosas japonesas chegaram ao Brasil, com raríssimas exceções, pelas mãos dos imigrantes que vieram trabalhar majoritariamente nos cafezais paulistas, a partir de 1908. Quando essas religiões começaram a cruzar a fronteira da comunidade nikkei em direção à sociedade nacional, nas décadas de 1950 e 60, depararam-se com a questão da tradução. Nesta comunicação, parto de minha experiência com pesquisa sobre a religiosidade japonesa para tecer comentários e discutir questões teóricas sobre a tradução religiosa. Serão debatidas questões linguísticas e extralinguísticas envolvendo a tradução religiosa, como diferenças socioculturais, multiplicidade das grafias na língua japonesa, tradução como elemento crucial na estratégia de propagação de grupos religiosos, entre outras. Se a comunicação entre línguas e culturas é um pressuposto em um mundo globalizado, a transnacionalização religiosa é um fenômeno igualmente relevante tanto quanto crescente.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

Alemão: Melanie Strasser

One thought on “Simpósio: Tradução e migração

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