Simpósio: Tradução, contemporaneidade e representações transculturais

Coordenadores:
Professora Doutora Maria Aparecida Andrade Salgueiro (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / FAPERJ)
Professor Doutor Luiz Barros Montez (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ)

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Pesquisas das últimas décadas mostram que a tradução não é apenas processo interlingual, mas fundamentalmente, atividade intercultural. No mundo contemporâneo, é recorrente a representação transcultural de diferentes ordens. O enfoque da transferência cultural na tradução, detalhando a habilidade do tradutor em “negociar” a compreensão da especificidade das culturas e suas diferenças, é destaque entre os objetos de pesquisa. A globalização da comunicação, o multiculturalismo, a tradição e a transmissão cultural geram constantes debates ideológicos, emprenhados pela política. Nesse quadro, segue fundamental o papel da Tradução na difusão da diversidade cultural. Nas representações transculturais, a mediação é executada por tradutores e intérpretes. A pesquisa contemporânea em Literatura, aí incluída a grande produção após os atentados de 11/09/2001, tem ocasionado o repensar dos limites de disciplinas e de antigos conceitos.

 

Local: Sala 202 , CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 Questões de Tradução Intercultural: traduzindo a negritude
Profa. Dra. Maria Aparecida Andrade Salgueiro
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / FAPERJ)
Representações transculturais no interior da literatura brasileira: o percurso da memória na ficção contemporânea
Profa. Dra. Luciane Nunes da Silva
(Universidade Estácio de Sá – UNESA)City of God: Traduzindo a “neofavela” de Paulo Lins
Adriana Merly Farias
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)
13:30-15:00 Reflexões tradutórias e historiográficas do relato de viajante alemão Friedrich von Weech no Rio de Janeiro entre 1823 e 1827
Prof. Dr. Luiz Barros Montez
(Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ)
O conceito de tradução cultural. Reflexões a partir da literatura de viagem
Prof. Dr. Gerson Roberto Neumann
(Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS)
Nós textuais de significado nas legendas do documentário “Saudade do futuro”
Lavínia Teixeira Gomes
(Universidade Federal da Paraíba – UFPB)
Shakespeare em Neo Verona: analisando uma tradução japonesa de Romeu e Julieta
Diandra Sousa Santos
(Universidade Federal da Bahia – UFBA)
15:30-17:00 O corpo em tradução: Zaji, pelo canto do olho, na cadência do compasso
Profa. Dra. Susana Fuentes
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / FAPERJ)
Experimentos de tradução intercultural em literatura afro-brasileira
Felipe Fanuel Xavier Rodrigues
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)
Transgressão e digressão na tradução de “Tengo miedo torero” de Pedro Lemebel
Alejandra Rojas
(Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS)

RESUMOS

1) City of God: Traduzindo a “neofavela” de Paulo Lins
Adriana Merly Farias (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)
Nos últimos anos, a arte da tradução vem sendo cada vez mais desafiada por novos conceitos. A comunicação entre as diversas culturas, a curiosidade pelo universo do “outro”, e as linguagens coloquiais formadas em diversas sociedades vêm dando ao tradutor um papel bem mais ousado que vai além de técnicas e versões entre línguas. Diante de diversos códigos étnicos e culturais, que envolvem representações, entonações, questões políticas, modismos, e novas linguagens trazidas por diversas artes, o tradutor atua como pesquisador e negociador entre os códigos presentes no texto original e os códigos que formam o leitor da outra língua. Neste contexto, a obra literária Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins, através de sua tradução para o inglês (City of God) invade o imaginário do leitor de língua inglesa, especialmente o norte-americano e o britânico. O desafio da tradutora Alison Entrekin encontra-se não somente em lidar com a questão da linguagem informal, mas principalmente em retratar a atmosfera da favela carioca, repleta de códigos específicos, em três diferentes décadas (1960, 70 e 80).

2) Experimentos de tradução intercultural em literatura afro-brasileira
Felipe Fanuel Xavier Rodrigues (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)
Ao considerar que a cultura de um grupo impõe um entendimento específico, para além da ordem social estabelecida (Mattelart, 2004), o gesto de traduzir obras literárias afro-brasileiras contribui para a compreensão ampla da cultura, com a tradução assumindo os problemas da representação do outro por meio da língua, um exercício que pode apresentar novas possibilidades de interpretação, pois interfere no próprio processo de leitura de culturas (Salgueiro, 2010). Nos experimentos de tradução em andamento de contos afro-brasileiros de Mãe Beata de Yemonjá para a língua inglesa, a literatura exigiu seriedade para além dos aspectos formais do texto, bem como o abandono da dissociação — reconhecida como “falaciosa” por Eduardo F. Coutinho (2011, 8) — entre o texto e o contexto. No campo da literatura comparada, a tradução revela, pois, o quanto a cultura problematiza as áreas do saber, reivindicando interdisciplinaridade.

3) Nós textuais de significado nas legendas do documentário “Saudade do futuro”

Lavínia Teixeira Gomes (Universidade Federal da Paraíba – UFPB)
Objetivamos apresentar um estudo sobre referências culturais ligadas à cultura nordestina presentes nas legendas em francês do documentário “Saudade do futuro”, de Marie-Clémence e Cesar Paes (2000). Através do conceito de “nós textuais de significado”, que, segundo Lewis (1985, p. 271), refere-se aos momentos no texto de partida, carregados de significado semântico ou proposicional, e dos “Itens de especificidade cultural”, tipologia proposta por Aixelá (1996) para o estudo de referências culturais, analisamos a tradução dos termos ligados à cultura nordestina.

4) O conceito de tradução cultural. Reflexões a partir da literatura de viagem
Prof. Dr. Gerson Roberto Neumann (Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS)
Ao se tratar de tradução, estão em questão dois contextos: o originário e o segundo, resultado da atividade ou da atuação sobre o primeiro. Com a absorção de elementos de uma cultura, o que pode ser tomado como a leitura de uma cultura ou de elementos desta, dá-se primeiramente a passagem daquilo que foi absorvido por meio de impressões pessoais e a seguir o momento de transmissão dessa leitura, ou seja, traduz-se. Um dado “novo” passa a fazer parte desse leitor. O leitor, contudo, ao traduzir a sua leitura de elementos de uma cultura, acaba por efetuar mudanças em relação ao original. O século XIX marca uma (re)descoberta do mundo por viajantes, principalmente europeus, que pretendem registrar impressões de suas viagens em forma de livros. Essa atividade intelectual e de aventura pode ser interpretada como mais uma forma de globalização da comunicação, transmissão de experiências culturais a partir de viagens. Nesse sentido, pretende-se trazer à discussão questões teóricas em torno da tradução associadas à literatura de viagem. Assim, perguntamo-nos: Existe aí tradução? E, além disso, o que é a tradução cultural no processo tradutório?

5) O corpo em tradução: Zaji, pelo canto do olho, na cadência do compasso
Profa. Dra. Susana Fuentes (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / FAPERJ)
No conto “Disritmia”, entre as vozes dos Cadernos Negros (Quilombhoje) em edição dedicada aos Contos Afro-Brasileiros, Elizandra Souza revela as angústias, reminiscências e recentes conquistas da personagem Zaji. A partir de questões da contemporaneidade, do feminino na expressão literária e a matriz africana em rizomas e subjetividades distintas em deslocamentos da diáspora, o presente estudo busca refletir negociações do texto na tradução para a língua inglesa. Dessa forma, na tradução em curso, identificar rompimentos e contrapor imagens tendo em vista o que o próprio conto anuncia: a cadência, o improviso, o impasse. Em imaginários possíveis do corpo, para Zaji apresenta-se a questão – o que fazer com o corpo paralisado, o medo, se os passos são mais firmes dentro do livro, na folha, com as palavras, do que na dança? Como agir até os pés alcançarem a terra, pisarem o barro, e no bairro da Cabaça, não mais permanecerem secos?

6) Questões de Tradução Intercultural: traduzindo a negritude
Profa. Dra. Maria Aparecida Andrade Salgueiro (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / FAPERJ)
Dando sequência a trabalhos em torno da Literatura Afro-americana, iniciados na abertura dos anos 90, a presente comunicação destaca aspectos de pesquisa em curso, baseada na tradução de textos da Literatura Afro-americana para o Português do Brasil. Ao propor análise de como a negritude – ou ‘o ser negro’ – se traduz em diferentes contextos e espaços geográficos, observa relações de poder, processos de construção identitária colonial e pós-colonial, o surgimento de cânones literários, hegemonia cultural e globalização, desmistificando espaços e mostrando a tradução como atividade que ocorre não em um espaço neutro, mas sim, em situações sociais e políticas concretas.

7) Reflexões tradutórias e historiográficas do relato de viajante alemão Friedrich von Weech no Rio de Janeiro entre 1823 e 1827
Professor Doutor Luiz Barros Montez (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ)
Os relatos de viagens formam um campo discursivo próprio, para cuja análise são requeridas reflexões sobre o fazer tradutório indissociáveis de diversos problemas de ordem historiográfica. Por outro lado, segundo alguns paradigmas propostos pelo campo do que chamamos de Análise do Discurso Crítica, os relatos podem ser vistos como práticas simultaneamente de representação, de ação social e de constituição de identidades com características bastante específicas. Com base nessa constatação e em algumas de suas implicações, sugere-se que a atividade de tradução de relatos de viagens não seja realizada apenas com base em propósitos hermenêuticos que moldam exclusivamente discursos acerca do presente, mas também e simultaneamente do passado. Com base nessas constatações, a comunicação aponta questões práticas e teóricas surgidas durante o processo de tradução de um relato inédito do alemão Friedrich von Weech no Rio de Janeiro, referente à sua estadia naquela cidade entre 1823 e 1827.

8) Representações transculturais no interior da literatura brasileira: o percurso da memória na ficção contemporânea
Profa. Dra. Luciane Nunes da Silva (Universidade Estácio de Sá – UNESA)
A compreensão do ato de escritura e da escrita literária como atividades interculturais constitui um eixo de reflexão bastante produtivo para se pensar a produção literária no mundo contemporâneo, em que limites geográficos e fronteiras culturais tornam-se cada vez mais flexíveis frente à capacidade de mobilidade física (e virtual) e à existência de infinitas e dinâmicas trocas culturais. Esse “intercâmbio” de valores, de bens culturais, de padrões comportamentais e de visões a respeito do mundo e da existência tem sido identificado na relação entre textos de sistemas literários diferentes. No que tange à produção literária brasileira, torna-se instigante refletir sobre possíveis movimentos transculturais no interior de nosso próprio sistema literário. Assim, este trabalho analisará o percurso da memória em Cinzas do norte, de Milton Hatoum, em O Filho eterno, de Cristóvão Tezza – narrativas oficialmente premiadas pela crítica brasileira, através do Prêmio Jabuti- e em Becos da memória, de Conceição Evaristo – escritora independente cuja obra, com lugares étnico e social marcados, tem sido divulgada pela crítica acadêmica no Brasil e nos Estados Unidos.

9) Shakespeare em Neo Verona: analisando uma tradução japonesa de Romeu e Julieta
Diandra Sousa Santos (Universidade Federal da Bahia – UFBA)
O presente trabalho conduz uma breve análise do processo de tradução da peça Romeu e Julieta, escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare, em 1594, e da animação japonesa Romeo x Juliet, dirigida por Fumitoshi Oizaki e com roteiro de Reiko Yoshida, lançada no Japão em 2006. Entendendo a tradução como uma atividade criativa e cultural, o principal objetivo do artigo é observar como aspectos da cultura japonesa são inseridos pelos tradutores em seu texto de acordo com as especificidades desse tipo de animação. Tais marcas são inerentes ao processo tradutório e ratificam a posição do tradutor como sujeito que lê, interpreta e ressignifica o texto de partida, construindo assim um novo texto. A base teórica pauta-se nos estudos contemporâneos sobre a Tradução, em especial as reflexões de teóricos pós-estruturalistas como Jacques Derrida e Gilles Deleuze, os quais são aqui ampliados e adaptados de modo a incorporar o campo da tradução intersemiótica, levando-se em conta a subjetividade e a consequente singularidade inerentes à prática tradutória, características que tornam possível a existência de múltiplas leituras de uma mesma obra.

10) Transgressão e digressão na tradução de “Tengo miedo torero” de Pedro Lemebel
Alejandra Rojas (Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS)
A tradução do romance “Tengo miedo torero”, do escritor chileno Pedro Lemebel, tem me levado por um labirinto de possibilidades que se traduzem aqui em um relato sobre essa experiência tradutória que me ajuda a tecer algumas reflexões de ordem teóricas e práticas sobre o romance. Se o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu, sendo a teia uma metáfora da cultura, o conceito de tradução é essencialmente semiótico. Portanto a tarefa do tradutor é interpretar e (re)significar essa teia dentro de outro sistema de signos. A ditadura militar chilena é o contexto no qual se desenvolve a narrativa de “Tengo miedo torero” e dentro desse contexto/teia o tradutor deverá mover-se sem romper os delicados fios que a conformam. Portanto, essas reflexões estão alinhavadas não só com os aspectos culturais que documentam e permeiam a obra, mas também com o respeito ao sujeito criador que nos conecta através de sua narrativa com a pulsão vital e com a emoção estética.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

Alemão: Melanie Strasser

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One thought on “Simpósio: Tradução, contemporaneidade e representações transculturais

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