Simpósio : Tradução como encenação: literatura traduzida por poetas e ficcionistas

Coordenadores:
Mayara Ribeiro Guimarães – UFPA
Julio César Monteiro – UnB

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Desde o século XIV, a prática de tradução envolve também o gesto de reflexão sobre esse processo. A proposta deste Simpósio é seguir tal exercício e discutir a prática de tradução literária partindo da metáfora do tradutor como ator, onde a escrita do outro espelha a escrita do próprio, já que aquilo que o autor escreve nunca lhe pertence por inteiro e nem lhe é completamente alheio. Exemplo disso é a prática tradutória realizada por Clarice Lispector, que interfere na criação literária da autora no que diz respeito ao apagamento entre as fronteiras autor-narrador-personagem e à mescla de diferentes registros de linguagem. O ato de traduzir, nesse caso, se aproxima muito de uma dinâmica própria daquela encontrada no drama cênico. Busca-se, com isso, refletir sobre o gesto tradutório como exercício de reencenação da linguagem.

 

Local: Sala 208 , CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 Haroldo de Campos traduz Dante e Ungaretti
Gaetano D’Itria
(UFRJ)
Autoria e tradução putativa em Cartas Chilenas
Julio Cesar N. Monteiro
(UnB)
A encenação tradutória como metáfora da criação poética de Rilke por Paulo Plínio Abreu na Amazônia brasileira
Jairo Vansiler
(UFPA)
Da palavra ao êxtase: Ana C. reescreve K. Mansfield
Mayara R. Guimarães
(UFPA)
13:30- 15:00
15:30- 17:00

RESUMOS

1. HAROLDO DE CAMPOS TRADUZ DANTE E UNGARETTI
Gaetano D’Itria (Tradutor e Graduando UFRJ)

Traduzir poesia é traduzir o intraduzível. É com esse paradoxo que o tradutor entra no abissal mundo poético dominado pelo mistério e pelo secreto que cada palavra carrega. A árdua tarefa o põe em um não-lugar. Entre uma língua e a outra. Escultor de uma rocha diamantina. “Redimir na própria a pura língua, exilada na estrangeira, liberar a língua do cativeiro da obra por meio da recriação – essa é tarefa do tradutor” (Benjamin, 2008, 79). É isto que permite “pervivencia” à obra. A liberdade em seu agir paradoxal, na contínua procura do Outro, transcrita não apenas sentidos, mas sim poesis. O labor exigido é mais um “reconhecimento pleno da alteridade – em particular da alteridade da tradição – e pela liberdade subjetiva” (Lages, 2007: 15). A aura poética entra no peito e emprenha toda a produção. O mergulho na cultura alheia ultramarina em Campos, como em Ungaretti, não muda as próprias culturas identitárias que permanecem intactas, mas compartilha do mesmo mar que os une e os separa.

2. A encenação tradutória como metáfora da criação poética de Rilke por Paulo Plinio Abreu na Amazônia brasileira.

Jairo Vansiler – Mestrando – UFPA

Podemos dizer que existe um drama no ato tradutório do tradutor quando este traduz poesia sendo ele também um poeta. Há nesse sentido um jogo de espelhos, reflexos e reflexões que, no drama da encenação do outro através de si, funde-se à metáfora viva da criação, entendendo a metáfora como um lugar por excelência de interstício entre mundos. Como parte desse jogo/ato percebemos uma conduta singular de poetas traduzindo poetas, ao mesmo tempo como exercício formativo, respeitando as formas e líricas da tradição por um lado, mas por outro uma subversão a esta mesma tradição impulsionando à criação. Nesse sentido, esta comunicação visa explorar a atuação tradutora e criativa do poeta e tradutor paraense Paulo Plinio Abreu (1921-1959) enquanto tradutor de Rainer Maria Rilke (1875-1926), conduta esta que impactou sobremaneira o seu processo criativo autônomo. Intérprete do poeta de língua alemã no cenário Amazônico das décadas 1940 e 1950, o poeta paraense executou um papel crítico e atualizador, que acreditamos ter sido formador para aquela fecunda geração de intelectuais, de onde brotaram nomes como Benedito Nunes (1929 – 2011) e Mário Faustino (1930 – 1962).

3. Da palavra ao êxtase: Ana C. reescreve K. Mansfield
Mayara R. Guimarães (UFPA)

A ideia de que o desafio de uma tradução literária, e a felicidade de sua realização, consiste na aceitação da perda de uma correspondência absoluta a que o tradutor literário se rende permite-lhe assumir um regime de escrita/tradução regido pela busca de uma equivalência sem adequação no processo de passagem do texto partida para o texto de chegada. Nesse caso, o horizonte da tradução incluiria a manutenção de uma dialogicidade do ato de traduzir, onde a manutenção do que lhe é próprio exigiria também a manutenção do que lhe é estrangeiro. Assim, na perspectiva haroldiana das teorias de tradução, quanto maior a impossibilidade da tradução maior a possibilidade de recriação. Entendendo a prática tradutória como exercício autônomo, com normas próprias, que converte o tradutor ao status de autor do texto traduzido, perfazendo-se no domínio de um crime que desencaminha a linguagem, buscarei nesta comunicação sinalizar os procedimentos tradutórios realizados por Ana Cristina César na tradução do conto “Bliss”, de Katherine Mansfield, de modo a desvendar a dialogicidade mantida pela tradutora brasileira em seu gesto de tradução/recriação do conto de Mansfield.

4. Autoria e tradução putativa em Cartas Chilenas
Julio Cesar N. Monteiro (UNB)

Tomás Antônio Gonzaga, árcade e inconfidente, escreveu suas Cartas Chilenas atribuindo-se o papel de tradutor. Pretendeu, assim, escapar da censura vigente no reinado de D. Maria I de Portugal; para levar a cabo seu intento, lançou mão de variados recursos retóricos a fim de descrever o contexto político social e econômico da Minas Gerais da época.
O recurso à tradução auto-imputada como elemento literário não é novo, nem Tomás Antônio Gonzaga foi seu precursor: sirvam os exemplos de Don Quijote de la Mancha e as Cartas Persas de Montesquieu.
Nesse jogo de falsa tradução que permite dizer quase tudo, posto que supostamente não é um texto próprio, a autoria incerta apaga o ser histórico a quem possa atribuir-se culpa por críticas mordazes e tampouco alude ao poeta de quem se possa cobrar fidelidade ou afinidade estilística de qualquer natureza.
Pretendo examinar como o recurso à tradução putativa em Tomás Antônio Gonzaga configura-se no texto literário do ponto de vista estético e, também, quais imagens o texto das Cartas Chilenas projetam sobre o fazer do autor e do tradutor em dado contexto sociohistórico.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

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