Simpósio: Poéticas da Tradução I / Poéticas da Tradução II

Coordenadores:
Izabela Leal (UFPA), Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ) / Paula Glenadel (UFF), Masé Lemos (Unirio)

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Especialmente a partir do romantismo alemão, a tradução se torna um lugar privilegiado de reflexão, crítica e produção literária, aproximando-se de uma poética. O simpósio pretende explorar essas afinidades, reunindo trabalhos teóricos e críticos que privilegiem os seguintes aspectos: a tradução como crítica; a tradução como procedimento de apropriação e criação poética; a fidelidade e o apagamento do tradutor; a tradução etnocêntrica e a tradução literal; a tradução como forma de mutação e renovação do original; a questão da oralidade (teatro, performance); a questão da diferença e do hibridismo entre línguas.

 

Local: Sala 228, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 A tradução legente em Maria Gabriela Llansol
Lucia Castello Branco
(UFMG)
À procura da palavra de Emily Dickinson
Fernanda Mourão
(UFMG)
Retraduzir o nome de Deus?
Andrea Lombardi
(UFRJ)
Marcas do exílio na escrita kafkiana: Aporias da tradução do eu
Susana Kampff Lages
(UFF)
Acaso, tradução e autobiografia em Jacques Derrida
Paula Glenadel
(UFF)
Tradução: critica e recriação: trovadores e modernidade
Inês Oseki-Dépré
(Universidade Aix-Marseille)
O macarrônico: a tradução canibal de Oswald de Andrade
Masé Lemos
(UNIRIO)
Tinha uma tradução no meio do caminho
Marília Garcia
(UNIRIO)
Por uma abordagem não autoexplicativa: a poética da tradução de Haroldo de Campos
Rosario Lázaro Igoa
(UFSC/ Dout.)
 
13:30-15:00 Essa tradução faz história: Michelet tradutor de Vico
Maria Juliana Gambogi Teixeira
(UFMG)
Uma reflexão sobre as dificuldades suscitadas por “faire du style”, “moyen” e “fil” na tradução para o português do “Essai d’esthétique littéraire”, de Pierre Reverdy
Rebeca Schumacher Eder Fuão
(UFRGS/ Dout.)
Robert Ponge
(UFRGS)
A recepção de Schleiermacher, Berman e Venuti no Brasil: questões de alteridade, tradução e relação
Letícia Della Giacoma de França
(UFPR/ Mest.)
Algumas traduções de Le Spleen de Paris
Marina Borges de Carvalho
(UFRJ/ Mest.)
Tradução e musicalidade
Verônica de A. Costa
(UFRJ/ Dout.)
A experiência da tradução de Le nom sur le bout de la langue de Pascal Quignard
Ruth Silviano Brandão
Yolanda Vilela
(UFMG)
A tradução como poética do intraduzível
Wilson Coêlho Pinto
(UFF/ Dout.)
A transluciferação herbertiana: dois casos exemplares
Izabela Leal
(UFPA)
Mallarmé e a “noite das sonoridades”
Marcelo Jacques de Moraes
(UFRJ)
 
15:30-17:00 A experiência do estrangeiro em Zibaldone di Pensieri: a herança alemã na teoria da tradução leopardiana
Gisele Batista da Silva
(UFRJ/ Dout.)
Pseudotradução na obra de Giacomo Leopardi
Anatália C. Corrêa da Silva
(UFSC/ Mest.)
Traduzir no escuro, traduzir do escuro. Primo Levi leitor, escritor, tradutor
Anna Basevi
(UFRJ/ Dout.)
“Meio/metade da vida” e algumas reflexões sobre reconstrução da forma e (re)tradução poética
Marcelo Rondinelli
(UFSC/ Dout.)
O palimpsesto tradutor: Camões, por Jorge de Lima
Daniel Glaydson Ribeiro
(USP/Dout.)
Galáxias: o passado sob o olhar do presente
Geovanna Marcela da Silva Guimarães
(UFPA/ Mest.)
A tradução poética em torno da perspectiva prática e teórica de Augusto de Campos
Fernanda Maria Alves Lourenço
(UFSC/ Mest.)
“Aberto, cheio de ar e tal” – traduzindo Frank O’Hara
Beatriz Bastos
(PUC-Rio/ Dout.)
A importância do corpo na tradução poética de Herberto Helder
Rafaella Dias Fernandez
(UFPA/ Mest.)
 

RESUMOS

1) Aberto, cheio de ar e tal” – traduzindo Frank O’Hara
Beatriz Bastos (PUC-Rio – Doutorado)
Como traduzir o ar? Aproximando teoria e prática, este trabalho propõe um modo de ler poesia a partir do processo de tradução do poema “Three airs”, do norte-americano Frank O’Hara. Ao mesmo tempo em que realiza uma análise detalhada do poema, incluindo aspectos formais e semânticos, o presente trabalho procura pensar a tradução como um terreno revelador do pensamento da linguagem e da literatura (Meschonnic, 1999). Mostramos como O’Hara constrói efeitos de leveza e abertura através de uma dinâmica que simultaneamente se aproxima e se distancia da tradição poética, incorporando coloquialismos e recursos da música e da pintura. O’Hara, além de nos permitir problematizar noções de poeticidade e oralidade, cria um poema cujo significado permanece em aberto, suspenso. Por isso, ao traduzir esses três ares o’harianos, tivemos cuidado em não “pesar a mão”, não explicitar o que é apenas sugerido. Ao transpor para o português, deixar que os sentidos permaneçam abertos, “no ar”.

2) Acaso, tradução e autobiografia em Jacques Derrida
Paula Glenadel (UFF)
O trabalho pretende discutir aspectos das relações entre a noção de acaso, a tradução e a escrita autobiográfica na obra de Jacques Derrida. Aqui, a tradução aparece como ligada ao acaso, na medida em que os jogos poético-filosóficos são também idiomáticos e não se deixam transportar de maneira constante entre línguas, num jogo entre a “álea” e o “código” que o pensamento (autobiográfico) do “monolinguismo do outro” tenta acompanhar. Nesse sentido, o gesto recorrente em Derrida é o de apresentar suas marcas, traços idiomáticos ou idiossincráticos como acaso, visto como “sorte”, e incorporado como “benção”, com todas as ambivalências presentes na tradução de chance – entre “sorte” e “chance” – e de sort – “destino”, mas contendo, em seu desvio, a ideia de “sorte”. Atualizando o eterno retorno enunciado por Nietzsche, essa dupla afirmação gera uma relação afirmativa com o mundo e seus acontecimentos, e talvez, mais do que a tão percorrida via “negativa” da desconstrução, seja o mais profundo legado de Derrida para o seu tempo.

3) A experiência do estrangeiro em Zibaldone di Pensieri: a herança alemã na teoria da tradução leopardiana
Gisele Batista da Silva (UFRJ – Doutorado)
Este estudo pretende apresentar e discutir a presença de um diálogo com as teorias da tradução alemãs do início do século XIX, patente em Zibaldone di Pensieri, o livro de anotações que Giacomo Leopardi escreveu de 1817 a 1832. Embora as reflexões sobre tradução do poeta italiano não sejam, na maioria das vezes, confrontadas com outras poéticas, dando-lhe um caráter essencialmente autônomo, este estudo quer mostrar no texto leopardiano em questão que a originalidade de seu pensamento está no latente diálogo que o poeta de Recanati estabeleceu com as teorias dos primeiros românticos alemães e na sua reelaboração para o solo italiano, apontando a tradução como um elemento de formação cultural de um país (Bildung) e elegendo a imaginação como a faculdade legitimadora da poesia como saber.

4) A experiência da tradução de Le nom sur le bout de la langue de Pascal Quignard
Ruth Silviano Brandão e Yolanda Vilela (UFMG)
A obra de Pascal Quignard escapa aos cânones tradicionais da literatura, revelando-se uma “experiência de escrita”, dada a heterogeneidade de gêneros observada num mesmo livro, como em Le nom sur Le bout de la langue, cuja tradução oferece uma série de desafios, pois atravessa saberes variados, como a psicanálise, a antropologia, a mitologia, numa escrita poética que é, talvez, o trabalho mais relevante para o tradutor que deve procurar uma musicalidade, um ritmo e uma escolha vocabular adequados ao texto de partida e ao de chegada, aos movimentos melódicos e as diferenças entre o francês e do português. Sua escrita revela uma rica erudição sem buscar uma função retórica, mas aponta para o desejo de se acercar da coisa, conforme conceito da psicanálise de Jacques Lacan. A busca do poético do texto nos fez procurar uma “escuta” cuidadosa do texto e um suporte teórico adequado à apresentação de nossa tradução, como “A tarefa do tradutor”, de Walter Benjamim, além de Che cos’è’ la poesia de Jacques Derrida, Antonin Artaud: o nascimento da poesia de Jean-Michel Rey, e outros.

5) A importância do corpo na tradução poética de Herberto Helder
Rafaella Dias Fernandez (UFPA – Mestrado)
A metamorfose é a base de todo o trabalho poético de Herberto Helder, principalmente no que concerne a tradução. Para ele, é o processo metamórfico que irá ressignificar todo trabalho tradutório e poético. A própria tradução é um tipo de metamorfose, pois nesse processo há a transformação do texto original em um novo texto, totalmente diferente daquele que lhe deu origem; esse ato já aponta para o gesto de traduzir como criação poética. Para Helder, todos os elementos giram em torno do corpo, visto que não é possível visualizar a mutação sem o corpo, sem a matéria que lhe deu origem, o corpo assume o lugar de destaque por ser o local da criação e o trabalho de criação não se distancia do de tradução, ambos estão relacionados a uma transformação da língua. Com isto, o objetivo deste trabalho é relacionar a tradução poética de Helder com a metamorfose, levando em consideração a importância do corpo para a transformação da obra.

6) Algumas traduções de Le Spleen de Paris
Marina Borges de Carvalho (UFRJ – Mestrado)
Walter Benjamin, em seu texto A tarefa do tradutor, nos coloca a seguinte questão: “E uma tradução? Será ela dirigida a leitores que não compreendem o original?”. Ele mesmo responde: “A tradução é uma forma. Para compreendê-la como tal, é preciso retornar ao original”. Com base nessa questão e em sua resposta, o trabalho aqui proposto visa ao estudo de algumas traduções (em espanhol, inglês e português) da obra Le Spleen de Paris – petits poèmes en prose do poeta francês do século XIX, Charles Baudelaire. Estudar as traduções produzidas em diversas épocas e em diferentes línguas e culturas implica um estudo do poeta em seu próprio século, cenário e questões, como também no contexto em que as traduções são realizadas e no tempo em que as estudamos. O intuito não é de julgá-las no que seria seu valor intrínseco, mas abordar e vislumbrar questões surgidas dos paralelos entre críticos, poetas e teóricos e das discussões que eles suscitam.

7) À procura da palavra de Emily Dickinson
Fernanda Mourão (UFMG)
Qual o sentido de se traduzir um escritor que resistiu à publicação? Ao perseguir esta questão, o texto sustenta a hipótese, inspirada por Walter Benjamin, de que a poética de Emily Dickinson (poeta norte-americana do século XIX que deixou ao morrer mais de 1.700 poemas não publicados) comporta as “leis de traduzibilidade” do autor, que nos ensinam acerca da poesia e de uma poética da tradução. Tomando como suporte as ideias de Benjamin, em “A Tarefa do tradutor”, e de “legência”, em Maria Gabriela Llansol, e buscando extrair da obra de Dickinson suas leis de traduzibilidade, propomos uma “poética da tradução” em Emily Dickinson.

8) A recepção de Schleiermacher, Berman e Venuti no Brasil: questões de alteridade, tradução e relação
Letícia Della Giacoma de França (UFPR – Mestrado)
Tendo como horizonte o estudo da recepção do pensamento de Schleiermacher, Berman e Venuti, este trabalho tem por objetivo delinear as diferentes tendências de leitura de suas obras e investigar em que medida elas se aproximam e/ou se distanciam de uma perspectiva relacional. Para tanto, realizei o mapeamento dos artigos publicados em periódicos brasileiros sobre os três pensadores e, com base nesse corpus, observei duas vertentes principais na recepção desses pensamentos: por um lado, revelou-se que a maioria dos artigos publicados no país empreende uma visada meramente metodológica da obra dos teóricos, buscando fundamentos para a prática e crítica de tradução; por outro lado, observa-se um movimento bastante reduzido, porém consistente, de leitura concentrada nos aspectos relacionais da empresa tradutória, passando por discussões em que os termos “ética”, “diferença”, “relação” figuram como norteadores, problematizando as “metodologias” de tradução propostas por cada teórico.

9) A tradução como poética do intraduzível
Wilson Coêlho Pinto (UFF – Doutorado)
Esta comunicação propõe uma reflexão sobre a tradução como procedimento de apropriação e (re) criação poética, a partir das dificuldades, malabarismos e/ou artimanhas utilizados na tentativa de traduzir o poeta francês Antonin Artaud, em especial, no poema Ci-Gît (Aqui Jaz). A ideia é explorar um pouco o processo da referida tradução, exemplificando com alguns dos problemas e caminhos eleitos para as supostas soluções. O processo da tradução, para além de uma transposição de uma língua a outra, passa pela consideração da relação do autor com o movimento surrealista, os aspectos subjetivos de sua criação que, nesta obra, se utiliza do francês clássico e do coloquial se socorrendo, às vezes, de gírias, neologismos e, ainda, do recurso aplicado à glossolalia como possibilidade ou tentativa de colocar como universal e, ao mesmo tempo, intraduzível.

10) A tradução legente em Maria Gabriela Llansol
Lucia Castello Branco (UFMG)
Maria Gabriela Llansol, escritora portuguesa falecida em 2008, propõe, em seu texto, o termo “legente”, em lugar de “leitor”. Tradutora de diversos poetas da modernidade, Llansol propõe uma poética da tradução que aqui designamos como “tradução legente”, em consonância com a proposta de leitura (legência) da autora. É a poética dessa “tradução legente” que pretendemos, neste texto, investigar.

11) A tradução poética em torno da perspectiva prática e teórica de Augusto de Campos
Fernanda Maria Alves Lourenço (UFSC – Mestrado)
Visto que o gênero poético tem emergido diversas opiniões quanto à sua traduzibilidade, esta comunicação visa discutir acerca da tradução de poesia a partir da perspectiva teórica e prática de Augusto de Campos. Renomado crítico e tradutor brasileiro, Campos exerce uma forma de crítica via tradução, na medida em que sua tradução-arte, como ele assim designa sua prática tradutória, “implica na co-criação ou re-criação de uma inflexão inexistente no idioma de chegada” (CAMPOS, 2004, p.293). Portanto, neste sentido tomaremos como embasamento principal as concepções de Campos acerca da atividade tradutória de poesia, além de apresentarmos alguns aspectos relevantes de sua trajetória como tradutor. A fim de sustentarmos a discussão a respeito da tradução poética analisaremos uma de suas traduções de um dos poemas da poetisa norte-americana, Emily Dickinson, publicada na obra Emily Dickinson: Não sou ninguém, em 2008.

12) A transluciferação herbertiana: dois casos exemplares
Izabela Leal (UFPA)
O poeta português Herberto Helder no livro Doze nós numa corda, inteiramente dedicado à tradução, publica o poema “Israfel” de Poe e as traduções de Mallarmé e Artaud, acrescentando, por último, a sua própria. É fácil notar que Herberto Helder traduziu o poema a partir da versão de Artaud, e não do original de Poe. Artaud, por sua vez, infligiu inúmeras modificações ao poema, alterando-o completamente. Procuraremos avaliar o sentido do gesto de tradução de Herberto Helder, atentando para o fato de tratar-se de uma tradução da tradução, o que já configura um ato transgressor em relação ao original. Além disso, ao traduzir o poema “Juventude virgem” de D.H. Lawrence, no livro As magias, Herberto Helder assume a mesma atitude tradutória de Artaud, modificando totalmente o poema e inserindo estrofes inteiras que não estavam presentes no original. Lembrando que no poema de Poe o princípio poético está associado à imagem do anjo Israfel, procuraremos investigar a tarefa luciferina que transparece na tradução.

13) Essa tradução faz história: Michelet tradutor de Vico
Maria Juliana Gambogi Teixeira (UFMG)
Em 1827, Jules Michelet publica uma tradução da obra magna do filósofo italiano Giambattista Vico, Scienza Nuova. A boa acolhida a essa tradução é exemplar da maneira como a tarefa tradutória, nessa primeira metade do século XIX, ainda se faz sob a égide das belles infidèles. Michelet se apropria da Scienza de Vico de forma bastante característica. Converte o título a Scienza Nuova em Principes de la philosophie de l’histoire, suprime e/ou condensa trechos inteiros do texto, declarando que assim “esperava ter destacado a unidade melhor do que no original”. Mas a disposição interpretativa característica dessa tradução pode ter efeitos ainda mais importantes: se o jovem tradutor de Vico se pretendera, até então, candidato a um posto na filosofia, é somente após – e imediatamente após – essa tradução que se converte em historiador. Nosso objetivo será o de demonstrar de que maneira poder-se-ia considerar a historiografia micheletiana como um projeto que, nascido de uma tradução, a prolonga e reinventa – fazendo dessa historiografia a reescritura da ciência viconiana.

14) Galáxias: o passado sob o olhar do presente
Geovanna Marcela da Silva Guimarães (UFPA – Mestrado)
A partir do poema “Galáxias”, publicado em 1984, vemos que o trabalho literário de Haroldo de Campos está em sintonia com o seu projeto de tradução poética, no sentido em que ambos revelam um grande interesse do autor pelo plurilinguismo, a mestiçagem e o diá-logo entre línguas e culturas. Em “Galáxias” esse trabalho se concretiza por meio de uma leitura da tradição marcada pelo jogo entre o antigo e o novo, a memória e a criação, e pela intertextualidade e o diálogo do poeta paulista com outros autores. Esta pesquisa tem como objetivo mostrar como a discussão sobre tradição é tratada por Haroldo de Campos e o valor que ela possui na compreensão de sua obra.

15) Mallarmé e a “noite das sonoridades”
Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ)
Se a relação com a música sempre foi fundamental para a poesia, se a música sempre foi intrínseca à fabricação e à dicção do verso, ela ganha um estatuto diferente no século XIX e, mais especificamente, com a obra de Mallarmé, quando justamente, e talvez definitivamente, o verso, em “crise”, tende a se estilhaçar, ou melhor, a se dissolver – ou se dissimular – na prosa. A partir de então, a “elocução sonora” que se torna o poema resiste cada vez mais à sua acomodação à ordem visual (às “imagens” do poema, como se costuma dizer), e “as palavras cessam de ser termos” (Blanchot) para oferecer o mundo em seu “quase desparecimento vibratório”, fazendo surgir o que o poeta chama de “noção pura”, ou “ideia”. Pretendo aqui especular sobre essa tensão “tradutória” entre “sonoridade” e “ideia” tal como a sugere Mallarmé (a “hesitação prolongada entre o som e o sentido” a que se refere Valéry), detendo-me brevemente sobre a tradução do poeta de Israfel, de E. A. Poe, poema em que a relação entre poesia e música é também tematizada.

16) Marcas do exílio na escrita kafkiana: Aporias da tradução do eu
Susana Kampff Lages (UFF)
Pretende-se identificar na produção diarística de Franz Kafka marcas de sua singular condição de escritor tcheco de origem judaica e fala alemã no contexto da literatura expressionista do início do século passado. Essa condição, marcada pela experiência do exílio, gera a tríplice impossibilidade expressa na sua famosa carta a Max Brod. Segundo Kafka, os judeus tinham de conviver com “a impossibilidade de não escrever, a impossibilidade de escrever em alemão, a impossibilidade de escrever de forma diferente”. A elas, acrescenta uma quarta, que nega a primeira e sintetiza as três: a impossibilidade de escrever. O bloqueio de escrita contra o qual Kafka luta é afim às aporias que envolvem a tarefa do tradutor, que ao buscar superar o mito da impossibilidade da tradução sempre acaba por se sentir incapaz de fazê-lo. Nesse sentido, a escrita moderna parece estabelecer uma ligação visceral com a tarefa do tradutor. Investigar a natureza e algumas manifestações literárias desse vínculo a partir de uma reflexão sobre o caráter autobiográfico da escrita kafkiana é um dos propósitos do trabalho.

17) “Meio/metade da vida” e algumas reflexões sobre reconstrução da forma e (re)tradução poética
Marcelo Rondinelli (UFSC – Doutorado)
O poema “Hälfte des Lebens” [“Metade da vida”], composto por Friedrich Hölderlin em 1803 e com a peculiaridade de ter sido um dos poucos entregues por ele mesmo à publicação, figura entre suas mais célebres criações, sobretudo porque – não sem controvérsias – interpretado por muitos como emblemático da condição do próprio autor, que passaria, dali em diante, a segunda “metade da vida” mergulhado num estado de insanidade incurável. Foi traduzido para inúmeras línguas e inspirou uma infinidade de estudos. Também no Brasil teve recepção destacada e foi objeto de traduções variadas, das quais duas, distantes quase meio século, serão aqui cotejadas, as de Manuel Bandeira e José Paulo Paes (este intitulando-a “Meio da vida”), com vistas a uma reflexão sobre concepções de fazer poético e tradutório. Para desenvolvê-la, serão tomados referenciais teóricos acerca da reconstrução da forma e do fenômeno da retradução poética, a partir de estudos de Paulo Henriques Britto e de Álvaro Faleiros, entre outros.

18) O macarrônico: a tradução canibal de Oswald de Andrade
Masé Lemos (Unirio)
Em 1911, Oswald de Andrade cria a revista O Pirralho onde publica, durante um ano, a coluna “Cartas d’Abax’o Pigues” assinada sob o pseudônimo de Annibale Scipione e escrita em uma língua que inventa, o macarrônico. Entretanto, o “macarrônico” tem sido entendido como simples imitação jocosa do dialeto ítalo-paulista. Pretendo nessa comunicação, pensar o “macarrônico” como criação que parte de uma arguta apropriação por Oswald daquilo que Gilles Deleuze entende como processo de “desterritorialização relativa”, ou seja, dos movimentos lingüísticos que aconteciam naquele momento em São Paulo com a presença dos imigrantes recém chegados e também das línguas dialetais populares que eram recalcadas pela elite. O “macarrônico” articula uma movimentação constante não só entre o italiano e o português e vice e versa, mas também devora e transforma outras línguas e dialetos. Oswald cria, a partir desse material, uma língua sempre em transição e que figura como tradução em ato.

19) O palimpsesto tradutor: Camões, por Jorge de Lima.
Daniel Glaydson Ribeiro (USP – Doutorado)
Nos termos da teoria que a própria Invenção de Orfeu (1952) esboça, ela é uma fala palimpséstica; e o que estava ali antes de ser raspado e sobrescrito, no moderno papiro, eram quatro epopeias do Ocidente – três delas a partir de oitocentistas e algo barroquizantes traduções: Eneida de Odorico Mendes, Divina Comédia de J. P. Xavier Pinheiro, Paraíso Perdido de Lima Leitão―. A crítica, ao sugerir certo descuido ou desídia do poeta por não se ater aos originais, não compreende que o problema da tradução é constitutivo desta obra épica e lírica (fusão de narrativa e canto; tempo e espaço; distensão e contensão; natura naturata e natura naturans). A quarta das epopeias citadas é Os Lusíadas, e o que o poeta-narrador faz, neste caso, é uma tradução (crítica) do português ao português, lidando com a impossibilidade e a alteridade aí imprescindíveis. No palimpsesto tradutor, o mito de Inês de Castro, a que foi entronizada depois do assassinato, se transfere para a narrativa da Ilha, Brasil.

20) Por uma abordagem não autoexplicativa: a poética da tradução de Haroldo de Campos
Rosario Lázaro Igoa (UFSC – Doutorado)
Frente à sua extensa obra poética, crítica e tradutiva, as visões sobre o legado em matéria de poética da tradução de Haroldo de Campos (1929-2003), tendem a estar próximas demais à sua criação poética, ou às traduções por ele realizadas. O resultado desse movimento é uma abordagem que explica seu objeto com o mesmo material que esse objeto lhe fornece. A sistematização de seus escritos teóricos sobre a tradução, que começam com “Da tradução como criação e como crítica”, de 1962, e se estendem até “O que é mais importante: a escrita ou o escrito? Teoria da Linguagem em Walter Benjamin”, de 1992, revela a possibilidade de estabelecer linhas de força na sua ampla produção teórica sobre o assunto. Tanto em relação ao estilo de tais escritos, por exemplo, quanto ao universo de autores com os quais H. de Campos dialoga, é possível abordar com mais distância, e tal vez profundidade, sua teoria da “transcriação”.

21) Pseudotradução na obra de Giacomo Leopardi
Anatália C. Corrêa da Silva (UFSC – Mestrado)
O fim do século XVIII e início do século XIX marcam uma época de grande incidência de traduções na Europa. Nesse período, há um forte incentivo à tradução de autores contemporâneos que, ao lado de traduções de autores latinos e gregos, fez surgir traduções de textos de autores desconhecidos. Muitas dessas traduções foram realizadas a partir de textos de escritores considerados desconhecidos. As traduções dessas obras anônimas foram tratadas posteriormente como falsas ou fictícias. Na Itália, Giacomo Leopardi (1789-1837), um dos mais importantes escritores italianos do século XIX, também compôs pseudotraduções. Com base nessas questões, discute-se acerca dessa prática, examina-se a produção de três pseudotraduções do autor italiano e a possível influência de tais traduções na sua obra.

22) Retraduzir o nome de Deus?
Andrea Lombardi (UFRJ)
Nome de Deus, origem da escrita, ética, hermenêutica, leitura: todos esses aspectos fulcrais na relação entre linguagem e pensamento se apresentam cindidos, duplos, irremediavelmente partidos na tradição ocidental. Presença recorrente, mas muitas vezes dissimulada, no texto bíblico (como a carta roubada no célebre conto de E.A. Poe ou como o anão corcunda das “Teses sobre a História”, de W. Benjamin), o nome de Deus precisa ser repensado, pois, como diz Benjamin “no nome a essência espiritual do homem se comunica a Deus”. Aqui pretende-se compreender essa essência espiritual e o próprio nome de Deus como elementos para uma reflexão sobre a origem e função da escrita, tornando mais evidente o caráter duplo de nossa tradição alfabética ocidental monoteísta entre as duas vertentes entrelaçadas: a grega (posteriormente gréco-cristã), e a judaica (que não é idêntica à “herança judaico-cristã” como totalidade indiferenciada). A reinterpretação literária e laica do nome de Deus poderia se assumir como parte de uma interpretação infinita e conferir autoridade a uma crítica após a catástrofe.

23) Tinha uma tradução no meio do caminho
Marília Garcia (Unirio)
Antropofagia, canibalismo, transcriação: são diversas as denominações criadas para pensar, na literatura brasileira, o ato de traduzir como procedimento de apropriação. Em diferentes épocas, verificou-se que a abertura para o outro e a deglutição de elementos estrangeiros constituíam, para nós, não um fim mas o próprio meio, a pedra no meio do caminho integrante do nosso processo de formação cultural. A troca com o outro sempre foi constituinte da identidade nacional. Também na produção contemporânea, são observados procedimentos que podem derivar do diálogo com o estrangeiro. Trata-se de verificar, a partir de um cruzamento da produção contemporânea e de textos traduzidos em circulação na língua, de que maneira, neste momento pós-utópico, tal apropriação ocorre.

24) Tradução, crítica e recriação: trovadores e modernidade
Inês Oseki-Dépré (Universidade Aix-Marseille)
Quando Augusto de Campos traduz Arnaut Daniel, Guilhem de Poitiers e outros poetas provençais, ele elabora uma re-criação paradoxalmente e ao mesmo tempo isomórfica e pessoal. Trata-se aqui de examinar até que ponto a tradução brasileira dos trovadores respeita ou oblitera o original.Por outro lado, o poeta francês Jacques Roubaud, especialista da poesia trovadoresca, à origem de certa corrente “oulipiana” da qual ele faz parte, traduz quase literalmente o original provençal. Seria interessante examinar essas duas posições aporéticas dentro do pensamento benjaminiano da tradução.

25) Tradução e musicalidade
Verônica de A. Costa (UFRJ – Doutorado)
De acordo com Schleiermacher, o elemento musical é essencial nas obras de arte. Entretanto, a musicalidade de uma tradução não é a mesma do original. Como o tradutor pode manter-se próximo do ritmo e da melodia da obra na sua tradução? Resolver a questão da musicalidade é uma dos desafios do tradutor. É preciso, porém, sabermos de qual tradutor estamos nos referindo: se é um músico ou não. O tradutor que não possui uma formação musical pode buscar a musicalidade da obra, mas não se deixará conduzir apenas pelo elemento musical; já o tradutor que é músico pode eleger a sonoridade como um elemento decisivo para a sua tradução (Schleiermacher). Surge aqui uma pergunta: como manter a musicalidade da obra em vernáculo sem perder o seu sentido? A resposta para esta pergunta se dará pela comparação entre traduções distintas do poema do ciclo “À vida”, de Marina Tsvetáieva. A comparação será feita com o intuito de apontar os caminhos a que o ato de traduzir pode nos conduzir.

26) Traduzir no escuro, traduzir do escuro. Primo Levi leitor, escritor, tradutor
Anna Basevi (UFRJ – Doutorado)
A tradução apresentou-se para Primo Levi com suas luzes e suas sombras. No inferno de Auschwitz, o prisioneiro Levi havia tentado a tradução oral e improvisada dos versos de Dante para um companheiro francês, re-significando o ato de traduzir como antídoto à Babel. Em seguida, ele quis acompanhar de perto a tradução, principalmente da edição alemã, de sua obra É isto um homem?, testemunho do campo de extermínio. No breve ensaio Traduzir e ser traduzido, Levi apontou para o ato de traduzir como evento positivo, atrelando a existência da civilização à tradução, na direção indicada por G. Steiner em After Babel. De outro lado, traduzir O processo de Kafka revelou-se uma tarefa difícil: a escrita kafkiana “obscura” lhe proporcionava sentimentos sombrios, próximos do unheimlich freudiano. Apesar dos obstáculos, segundo o escritor, a tradução não deixou de revestir uma relação privilegiada de diálogo com o texto literário, confirmando assim a idéia, exposta por Benjamin em A tarefa do tradutor, do ato tradutório como interpretação e leitura crítica aprofundada.

27) Uma reflexão sobre as dificuldades suscitadas por “faire du style”, “moyen” e “fil” na tradução para o português do “Essai d’esthétique littéraire”, de Pierre Reverdy
Rebeca Schumacher Eder Fuão (UFRGS – Doutorado) e Robert Ponge (UFRGS)
Desenvolvido na UFRGS, no projeto de pesquisa “As dificuldades de compreensão e de tradução do FLE para o português”, coordenado por Robert Ponge, e na tese de doutorado que está sendo elaborada por Rebeca Schumacher (que versa sobre dois poetas francófonos do início do século XX: um francês, Pierre Reverdy; um quebequense, Jean-Aubert Loranger), este trabalho visa estudar algumas das dificuldades e das possíveis soluções encontradas na tradução do “Essai d’esthétique littéraire”, de Pierre Reverdy. Sabendo que as línguas sempre apresentam diferenças em seus léxicos e sintaxes, discutiremos nossas escolhas como tradutores: ora de criação pelo tradutor, ora de apagamento dele; ora de fidelidade literal ao texto, ora de infidelidade dessa literalidade. Após apresentar muito rapidamente o autor e seu ensaio, trataremos de três dificuldades encontradas na tradução desse último (a expressão idiomática faire du style, o termo moyen, em função de suas “limitações”, e a palavra fil usada em sentido figurado), bem como das soluções que propomos.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

Alemão: Melanie Strasser

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