Simpósio: POÉTICAS AMERÍNDIAS E TRADUÇÃO

Coordenadores: Álvaro Faleiros (USP) e Pedro de Niemeyer Cesarino (UNIFESP)

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Parte relevante das produções criativas existentes no Brasil, as poéticas ameríndias ainda não têm recebido a devida atenção, apesar de um conjunto de trabalhos recentes ter começado a lhes dar certa visibilidade (tais como os de Betty Mindlin, Josely Vianna Baptista, Douglas Diegues, Sérgio Medeiros, Rosângela de Tugny, Bruna Franchetto e Pedro Cesarino). Trata-se de trabalhos realizados na interface entre a linguística, a etnologia e os estudos literários que têm produzido uma articulação da tradução com a investigação de suas originalidades conceituais. Diante da multiplicidade de povos e línguas existentes no Brasil, podemos constatar que, malgrado tais esforços, ainda faltam estudos para uma compreensão atualizada dessas poéticas. O intuito do simpósio é refletir sobre os modos de traduzi-las e os seus desafios teóricos, seja por meio de produções dedicadas a tradições orais específicas, seja pela transformação de referenciais indígenas pela literatura brasileira e das Américas.

 

Local: Sala HASSIS, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00- 11:30
13:30-15:00 Emplumando a grande castanheira
Álvaro Faleiros (USP)
Traduzir a poética ameríndia: um projeto interdisciplinar? Para quê?
Ana Helena Rossi, Beatriz Carretta Corrêa da Silva, Mauro Carvalho
Literatura Indígena Contemporânea: o encontro das formas e dos conteúdos na poesia e prosa do I Sarau das Poéticas Indígenas
Deborah Goldemberg (University of London)
Rubelise da Cunha (FURG)
O problema da sinestesia na tradução de poéticas ameríndias
Jamille Pinheiro Dias (USP)
15:30-17:00 As múltiplas camadas de significação dos nomes Mebêngôkre (Jê)
Vanessa Lea (UNICAMP)
Fazendo pessoa, fazendo livro: quando benzimentos se transformam em escrita
Pedro Lolli (USP)
Pỹtu ymagui: de las tinieblas primigenias, de la nuit originaire, do caos obscuro do começo – três traduções da cosmogênese Guarani.
Ian Packer (EHESS – Paris)
Considerações sobre o estudo e a tradução de poéticas ameríndias no Brasil
Pedro de Niemeyer Cesarino (UNIFESP)

RESUMOS

1) O problema da sinestesia na tradução de poéticas ameríndias

Jamille Pinheiro Dias (USP)

Trata-se de discutir possíveis rendimentos e limitações do expediente da sinestesia como parte de um repertório que sirva à tradução criativa de poéticas ameríndias. Comumente considerada por linguistas como tipo ou grau da metáfora (Cohen, 1966), a sinestesia é uma figura de linguagem de matriz clássica, tendo sido particularmente explorada pelo Simbolismo a partir de Baudelaire (Moisés, 1978). Ao entrecruzar sentidos tidos como pertencentes a diferentes modalidades sensoriais, porém, ela naturaliza uma compartimentalização apriorística entre eles. Pretende-se refletir sobre até que ponto o tradutor, ao tomar esse expediente como equivalente à sobreposição de “domínios” de sentidos característica de muitas ontologias ameríndias, empreende um processo de equivocidade tradutória (Viveiros de Castro, 2004); um esforço de tradução conceitual (Cesarino, 2012); adota-o como ferramenta heurística; ou propaga uma projeção assimétrica que pode obliterar especificidades das poéticas em questão.

2) Literatura Indígena Contemporânea: o encontro das formas e dos conteúdos na poesia e prosa do I Sarau das Poéticas Indígenas

Deborah Goldemberg (University of London)
Rubelise da Cunha (FURG)

Analisando as formas e conteúdos das apresentações dos índios e escritores indígenas contemporâneos no I Sarau das Poéticas Indígenas, este artigo trata da dificuldade de abordagens mais tradicionais da teoria dos gêneros em abarcar as narrativas indígenas e analisa como esta “crise” contribui para a ampliação das abordagens ocidentais e hierárquicas. Num palco aberto para a expressão contemporânea indígena, que é o Sarau, são os conceitos de performance e estórias contadas, com função social de manutenção da tradição, aprendizado continuado e transformação, que melhor definem esta expressão indígena.

3) As múltiplas camadas de significação dos nomes Mebêngôkre (Jê)

Vanessa Lea (UNICAMP)

A onomástica mebêngôkre exemplifica os desafios proporcionados pela polissemia. Muitos nomes pessoais aparentam ser inteligíveis, mas ao deter-se para traduzí-los o pesquisador se depara com seus significados multifacetados. Em outra ocasião fiz uma analogia entre os nomes pessoais e o “cinema de caboclo”, expressão usada para descrever as imagens em metamorfose produzidas pela ingestão de ayahuasca. O significado do nome remete não ao portador, mas ao epônimo. E por ser descontextualizado suscita diversas possibilidades de tradução. A recitação oral dos diversos nomes de uma pessoa encadea ritmos, rimas, aliteração e assonância, apresentando qualidades que são simultanemante estéticas, poéticas e mnemônicas. Ao transcrever palavras para o papel o pesquisador peneira uma glosa aproximada ou mantém o termo indígena cujas múltiplas nuances são explicadas num glossário. Outra possibilidade seria recorrer a gráficos na tentativa de preservar a riqueza de um enunciado qualquer.

4) Fazendo pessoa, fazendo livro: quando benzimentos se transformam em escrita

Pedro Lolli (USP)

Partindo de uma experiência etnográfica específica na região do Noroeste Amazônico, entre os Yuhupdeh, comumente referidos como Maku, pretendo refletir sobre o processo de tradução de fórmulas verbais, conhecidas regionalmente como benzimentos e usadas em ações de cura xamânicas, na forma escrita. A hipótese é que esse processo efetua uma transformação em tais fórmulas que altera o seu propósito, já que não se espera mais um efeito terapêutico delas. Nesse sentido, o trabalho de registro constrói um novo espaço de efetivação para os benzimentos atuarem na medida em que lhes dá um novo suporte para agir (o objeto-livro). Daí ser possível afirmar que o processo de tradução coloca em relação dois regimes de efetivação num movimento que ao mesmo tempo os diferencia e os conecta. É objetivo descrever e analisar como essas transformações afetam a tradução e quais as dificuldades que emergem desse processo.

5) Pỹtu ymagui: de las tinieblas primigenias, de la nuit originaire, do caos obscuro do começo – três traduções da cosmogênese Guarani.

Ian Packer (EHESS – Paris)

O presente artigo é um comentário a 3 diferentes traduções de mitos Guarani-Mbya. Registrados pela primeira vez por Leon Cadogan, que os reuniu na famosa publicação Ayvu Rapyta (1959) e os traduziu para o espanhol, estes mitos Guarani foram posteriormente traduzidos para o francês pelo antropólogo Pierre Clastres (1974) e recentemente para o português pela poeta brasileira Josely Vianna Baptista (2011). Traduções efetuadas com diferentes propósitos, preocupadas em captar a “letra”, o espírito ou a beleza do “texto” Guarani, apresentam soluções diferentes em cada língua de chegada e percepções diferentes sobre a cosmologia Guarani, uma das primeiras cosmologias ameríndias a entrar na órbita do Ocidente. Oferecem assim material importante para se pensar os caminhos da tradução na antropologia e vice-versa, que será confrontado com versões e comentários de nossos próprios interlocutores Guarani.

6) Traduzir a poética ameríndia: um projeto interdisciplinar? Para quê?
Ana Helena Rossi, Beatriz Carretta Corrêa da Silva, Mauro Carvalho
O objetivo desta apresentação é discutir a metodologia para uma tradução que se baseia no principio de que se traduz uma língua-cultura, e de que a língua é a expressão da cultura (Rodrigues). Neste sentido, a tradução enquanto campo conceitual necessita de aportes metodológicos e científicos de disciplinas diversas como a linguística, a antropologia, a sociologia, dentre outros. O trabalho minucioso de descrição linguística das línguas ameríndias sobre o território brasileiro nos leva a levantar tais questões sobre o papel da tradução, que tradução é feita/ que tradução é possível, com o intuito de objetivar as práticas de tradução submetendo-as a um questionamento da episteme em jogo. Nesse sentido, serão analisados alguns trabalhos de tradução literária – em particular de mitos – já realizados entre o português e diferentes línguas indígenas, assim como outros trabalhos em andamento para observar em que medida traduzir a poética do mito literário significa pensar e problematizar a tradução da língua-cultura a partir dos modelos que operam a prática tradutória. Colocado entre os países com maior diversidade linguística do mundo, o Brasil é um excelente campo de trabalho para tais estudos.

7) Emplumando a grande castanheira
Álvaro Faleiros (USP)
O intuito deste trabalho é apresentar um projeto de retradução de um canto araweté, traduzido e comentado por Viveiros de Castro em Araweté: os deuses canibais. O “canto da castanheira”, nome dado por Viveiros de Castro ao canto, é utilizado pelo antropólogo para ilustrar a complexidade enunciativa-citacional dos cantos xamanísticos araweté. Conforme Viveiros de Castro, o canto xamanístico araweté “é uma canção de canções, um discurso de discursos, é polilógico”, motivo pelo qual analisa-se, primeiro, a complexidade enunciativa do canto, para, em seguida, apresentar sua retradução.
8) Considerações sobre o estudo e a tradução de poéticas ameríndias no Brasil
Pedro de Niemeyer Cesarino (UNIFESP)
A apresentação pretende oferecer uma reflexão geral sobre as condições de estudo e tradução de poéticas ameríndias, tendo em vista as possibilidades de desenvolvimento de tal área de pesquisa no Brasil. Para tanto, tratarei de refletir sobre os desafios apresentados pela articulação entre criação literária, etnologia, linguística, estudos literários e estudos da tradução. Analisarei alguns momentos centrais para a compreensão da trajetória de constituição do campo em questão, bem como exemplos de tradução das artes verbais de povos das terras baixas sulamericanas.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

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One thought on “Simpósio: POÉTICAS AMERÍNDIAS E TRADUÇÃO

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