Simpósio: ONDE NÃO HÁ PALAVRAS: ICONOGRAFIAS TRADUTÓRIAS

Coordenadoras: Elizabeth Ramos (UFBA) e Maria Auxiliadora J. Ferreira (UNEB).

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A ausência das palavras não impede o espectador que se vê diante de uma imagem, de construir uma gama de leituras a partir das cores, formas e movimentos que se apresentam aos seus olhos.  Pinturas, desenhos, filmes, fotografias se oferecem como textos de chegada a serem usufruídos como traduções de escritas biográficas ou de ficção, lugares, eventos, momentos. Na sua condição de signo, cada imagem nasce e permanece em relação a outras imagens e signos, construindo uma cadeia infindável de suplementos criados pelo artista para representar seu universo. No silêncio da fruição de uma imagem, seja ela estática ou em movimento, constroem-se presenças de ausências ao contrário de vazios advindos da inexistência das palavras. Assim a imagem, na condição de tradução, se abre e se oferece ao deleite e à tradução do espectador, num incessante movimento de traduções de traduções, de passados que se tornam presentes por meio das ressignificações.

A partir dessas reflexões o simpósio congregará trabalhos que abordem formas de expressão da linguagem visual que utilizam imagens (pintura, escultura, fotografia, ilustrações e capas de livros, desenhos, fotografia cinematográfica) como tradução de diferentes textos de partida (eventos históricos, biografias, lugares, momentos, textos literários ou não), revelando as singularidades do olhar de seus artistas-tradutores.

 

Local: Sala DRUMMOND, CCE, bloco B

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 A arte de Frida Kahlo como palimpsesto corporal.
Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira
(Universidade do Estado da Bahia)
Interpretation of iconography and iconography of interpretation: the case study of La Malinche.
Adrijana Jerkic
(York University, Toronto, Canada)
A cartografia como espaço de (re)criação das Ilhas Malvinas.
Jorge Hernán Yerro
(Universidade Federal da Bahia)
13:30-15:00 Imagens, imagens, imagens: quando Hamlet não mais diz palavras.
Elizabeth Ramos
(Universidade Federal da Bahia)
Imagens que valem por uma tempestade de palavras: o romance Indigo traduzido em suas capas.
Fernanda Pinheiro Pedrecal
(Universidade Federal da Bahia)
Entre A pintura em pânico e Invenção de Orfeu, desdobrada tradução.
Daniel Glaydson Ribeiro
(Universidade de São Paulo)
Ilustrações de O Minotauro (1939) – traduções da paródia lobatiana.
Daniella Amaral Tavares
(Universidade Federal da Bahia)
15:30-17:00 Reescrevendo Bahia de Todos os Santos à luz e cores: tradução intersemiótica do romance de Jorge Amado para a fotografia.
Alana Murinelly Souza Monteiro
(Universidade Federal da Bahia)
O mito de Ulisses ressignificado: a tradução da Odisseia por Theo Angelopoulos.
Ricardo José Maciel Lemos
(Universidade Federal da Bahia)
A imagística do cisne em O lago dos cisnes e Black Swan.
Priscilla Cordolino Sobral
(Universidade Federal da Bahia)

RESUMOS

1) A ARTE DE FRIDA KAHLO COMO PALIMPSESTO CORPORAL
Nome: Maria Auxiliadora de Jesus Ferreira (Universidade do Estado da Bahia)

O termo palimpsesto, do grego palímpsestos, ‘raspado novamente’, faz referência ao antigo material de escrita, sendo o principal deles, o pergaminho, que devido à sua escassez ou alto custo, era usado duas ou até três vezes, por meio da raspagem do texto anterior. Palimpsesto também pode estar associado ao manuscrito sob cujo texto se descobre a escrita ou escritas anteriores. Partindo desse conceito, o presente trabalho pretende mostrar de que forma a obra da artista mexicana Frida Kahlo pode ser compreendia como um palimpsesto corporal, ao considerar que esta artista, ao pintar seus autorretratos, e neles contar inúmeros acontecimentos da sua vida, tomava o próprio corpo para metamorfosear-se nas diferentes Fridas. Para tal objetivo, alguns dos autorretratos da artista serão analisados, e também será mostrada de que forma, entre uma pintura e outra, uma Frida vai sobrepondo-se às demais, sem que as últimas, no entanto, consigam apagar por completo os vestígios das Fridas anteriores.

2) A CARTOGRAFIA COMO ESPAÇO DE (RE)CRIAÇÃO DAS ILHAS MALVINAS
Nome: Jorge Hernán Yerro (Universidade Federal da Bahia)

A apresentação parte do princípio de que a cartografia se configura como a tradução de um território representado/texto de partida. A partir desta perspectiva, aproxima-se de quatro (re)criações cartográficas de uma zona de conflito. O território/texto de partida traduzido são as Ilhas Malvinas e os quatro mapas/traduções observados são duas representações argentinas e duas inglesas. A reflexão se sustenta nos Estudos da Tradução, que entendem o processo tradutório como a (re)constituição de um texto de partida, cuja (re)leitura, crivada de interesses, atualiza e, assim, desestabiliza ou reforça leituras do passado estabelecidas a cada nova tradução. O trabalho almeja reafirmar a amplitude epistemológica dos Estudos da Tradução, enriquecer os estudos cartográficos a partir do olhar da teoria da tradução e trazer um novo olhar sobre um fato histórico em constante releitura como é a Guerra das Malvinas.

3) A IMAGÍSTICA DO CISNE EM O LAGO DOS CISNES E BLACK SWAN
Nome: Priscilla Cordolino Sobral (Universidade Federal da Bahia)

O presente trabalho analisa a imagística do cisne, preto e branco, no libreto da peça de balé “O lago dos Cisnes” (1877) do compositor Piotr Ilitch Tchaikovsky e como se deu a sua respectiva tradução na obra cinematográfica “Black Swan” (2010) do diretor Darren Aronofsky. A análise pressupõe que o cisne negro que aparece na obra “O lago dos cisnes” é o símbolo da tragédia e da morte, constituindo a imagem da traição e da imperfeição. Esta representação é transformada no filme Black Swan que problematiza a concepção binária do cisne trazendo a imagem do cisne negro não como elemento destrutivo, mas como símbolo da transformação e da força criativa. Por este viés, o trabalho pressupõe que a mudança da concepção do cisne negro entre as duas obras é reflexo das concepções da tradução. A tradução vista pelos estudos estruturalistas como a traidora, símbolo da imperfeição e que opera a perda, é considerada nos estudos pós-estruturalistas como um potencial transformador.

4) ENTRE A PINTURA EM PÂNICO E INVENÇÃO DE ORFEU, DESDOBRADA TRADUÇÃO.
Nome: Daniel Glaydson Ribeiro (Universidade de São Paulo)

Em 1943, Jorge de Lima, então no auge de sua poesia cristã, publica A pintura em pânico, narrativa surreal através de fotomontagens. Dentre elas, a gravura de um homem com um capacete, atuando num laboratório químico-industrial que ocupa, na imagem, espaço muito maior que o próprio homem. Trata-se de La Mettrie-Vauvenargues (fusão de dois filósofos franceses do Setecentos) ao descobrir o segredo da maquinaria do poeta: o plágio. Se bem que todo texto esteja enredado nas teias (predatórias) da comunicação discursiva, poucos explicitam com tal ímpeto essa arquitetura aracnídea e plagiária do discurso literário quanto a Invenção de Orfeu (1952), onde lemos versos retrabalhados de Virgílio, Dante, Milton, Camões, imiscuídos numa narrativa que fusiona épica e lírica; nação e homem; poesia, filosofia e teologia. Para muito além da maquinaria do plágio, A pintura em pânico traduz com antecedência e num formato inaudito, o pensamento poético que entrará em combustão na grande obra.

5) ILUSTRAÇÕES DE O MINOTAURO (1939) – TRADUÇÕES DA PARÓDIA LOBATIANA

Nome: Daniella Amaral Tavares (Universidade Federal da Bahia)

Em 1939, Monteiro Lobato publica O Minotauro, uma releitura do mito grego do ser meio homem, meio touro, morto pelo herói ateniense Teseu. Ao reescrever sobre o hipotexto clássico, ressignificado em inúmeras narrativas e representações iconográficas, o autor paulista confere à sua obra um tom mais atraente ao seu jovem público, não apenas por conta da presença da linguagem coloquial (FERREIRA, 2008) e do humor parodístico, mas também devido aos elementos paratextuais utilizados, especialmente as ilustrações, que segundo Luís Camargo (2008), fornecem suporte aos significados da obra literária. Dessa forma, consideramos que as imagens também integram a releitura do mito em O Minotauro, uma vez que o olhar do autor é compartilhado com seus ilustradores, que, por sua vez, igualmente traduzem o texto em questão. Nessa medida, propomos analisar as ilustrações de O Minotauro como ressignificações simultâneas das narrativas mítica e lobatiana e também de representações presentes na iconografia clássica.

6) IMAGENS, IMAGENS, IMAGENS: QUANDO HAMLET NÃO MAIS DIZ PALAVRAS
Nome: Elizabeth Ramos (Universidade Federal da Bahia)

O visitante, que percorre a loja de lembranças no teatro da Royal Shakespeare Company, em Stratford-upon-Avon, se depara com pequenos blocos de 10 por 5 centímetros, que trazem nas capas quase monocromáticas, títulos de peças de William Shakespeare acompanhados de um desenho minimalista, que alude a alguma imagem emblemática do texto dramático, além do nome da coleção – Flipping Shakespeare – que naturalmente leva o curioso a aceitar o convite de folhear o que tem em mãos. Assim procedendo, o mesmo curioso constata que o termo usado para nomear a coleção, não se aplica apenas ao ato de folhear, mas remete a um possível desejo de espelhamento da peça traduzida unicamente por meio de desenhos sobre páginas de papel cartão que compõem o pequeno bloco. Partindo desses dados, a apresentação aqui proposta tem o objetivo de analisar as ilustrações de David Foldvari que compõem as cinquenta e cinco pequeninas páginas da tradução intersemiótica iconográfica da tragédia shakespeariana Hamlet.

7) IMAGENS QUE VALEM POR UMA TEMPESTADE DE PALAVRAS: O ROMANCE INDIGO TRADUZIDO EM SUAS CAPAS

Nome: Fernanda Pinheiro Pedrecal (Universidade Federal da Bahia)

A área dos Estudos de Tradução começou a ganhar novas perspectivas a partir do final da década de 1960, quando verificou-se que as possibilidades da prática tradutória iam muito além da busca por equivalência e do transporte de signos linguísticos de uma língua para outra. Através da intersemiótica, tornou-se possível conceber a tradução entre sistemas de signos diferentes, o que permite admitir hoje, por exemplo, a utilização de imagens e ilustrações como textos-de-chegada a partir de obras que, por sua vez, terão o seu conteúdo verbal ressignificado para veículos não-verbais de comunicação. Assim, o presente trabalho propõe uma análise de três capas de livro, cada uma delas concebida para ilustrar uma edição diferente do mesmo texto literário, o romance Indigo (1992), da escritora britânica Marina Warner (1946 – ). Nossa reflexão tem como objetivo verificar de que forma imagens e cores presentes nas ilustrações das capas ressignificam a trama do próprio romance, o que configuraria um exemplo de como três diferentes expressões de linguagem visual revelam-se traduções de um mesmo texto-de-partida.

8) INTERPRETATION OF ICONOGRAPHY AND ICONOGRAPHY OF INTERPRETATION: THE CASE STUDY OF LA MALINCHE
Nome: Adrijana Jerkic (York University, Toronto, Canada)

The invisibility of the interpreter or the translator is a persistent topic in the current scope of Translation Studies. The voices and the habitus of these cultural agents are being researched from different perspectives, in an attempt to understand and situate their social role. In this case study, we are proposing an interdisciplinary methodological approach that will investigate the figure of La Malinche, an Aztec interpreter, through the lens of Art History and Erwin Panofsky’s view on the manufactured meanings. From this point of view, we are aiming to comprehend what was not documented or told through speech or writing, but through the rich iconography of this interpreter. She was depicted side to side with Hernán Cortés, wearing her native huipil or the cacica gown, but also wearing shoes. Shoes, a symbol of the European, not of the indigenous. At the same time, she was called “la lengua” of Cortés, signifying that without her intervention he would not be able to communicate with the peoples of the Americas, and in many cases, would not be able to gain their trust, alliance, or to plan strategic acts. Furthermore, the discourse created that surrounds her image has never ceased, and there is an entire iconographical universe that constructs the past and current vision of this interpreter. It is, therefore, our main goal to comprehend what was told through Art History’s iconography that wasn’t told or written about the interpreter, and how this affects today’s vision of the cultural agent.

9) O MITO DE ULISSES RESSIGNIFICADO: A TRADUÇÃO DA ODISSEIA POR THEO ANGELOPOULOS
Nome: Ricardo José Maciel Lemos (Universidade Federal da Bahia)

Em Um olhar a cada dia, filme realizado por Theo Angelopoulos, em 1995, temos não mais o dificultoso retorno de Ulisses a Ítaca após o fim da guerra de Troia, mas o retorno do cineasta grego A. à Grécia após trinta e cinco anos de exílio nos Estados Unidos. Ele retorna para a exibição de seu mais recente filme, mas seu real objetivo é a procura dos três rolos de um mítico filme dos irmãos Manakis que seria o primeiro a ter sido realizado nos Bálcãs. Na época da elaboração de Um olhar a cada dia, a guerra dos Bálcãs estava em seu apogeu, Sarajevo suportava os ataques das forças sérvias e toda a região já vivia o drama dos refugiados. Foram três as razões que levaram Angelopoulos a realizar o filme: o antigo desejo de adaptar a Odisseia, a suposta existência de um filme nunca revelado dos irmãos Manakis e a dúvida de que ainda seria capaz de enxergar o ser humano de forma verdadeira no contexto da guerra. Com base no dialogismo de Bakhtin, que entende a cultura e a obra literária abertas em significado e em diálogo com o mundo, renovando-se em sentido a cada novo contexto, este trabalho pretende analisar a ressignificação do mito de Ulisses em Um olhar a cada dia, tradução intersemiótica da Odisseia realizada por Theo Angelopoulos. Utilizaremos, para isso, o método “narratológico comparativo” proposto por Robert Stam para o estudo de traduções de obras literárias para o cinema, em especial no que diz respeito à observação das afinidades e diferenças temáticas e estilísticas existentes entre a obra literária e a obra cinematográfica. Será analisado também o contexto em que foi feita a tradução e sua influência na ressignificação presente na obra cinematográfica.

10) REESCREVENDO BAHIA DE TODOS OS SANTOS À LUZ E CORES: TRADUÇÃO INTERSEMIÓTICA DO ROMANCE DE JORGE AMADO PARA A FOTOGRAFIA

Nome: Alana Murinelly Souza Monteiro (Universidade Federal da Bahia)

A tradução intersemiótica adquire o status de recriação a partir do momento em que a entendemos como resultado de um processo de interpretação, apropriação e deslocamento de idéias anteriores feitas por um sujeito tradutor. O presente trabalho visa apresentar as primeiras reflexões de uma pesquisa, que busca traduzir intersemioticamente a obra Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios de Salvador, de Jorge Amado, para a fotografia. O autor parece saber e sentir a sua cidade como rastro para a construção da sua obra, e percebeu a necessidade de suplementar seu guia da Bahia de Todos os Santos com o passar dos anos, já que, publicado em 1945, o livro foi atualizado diversas vezes pelo escritor entre 1960 e 1986. A pesquisa em questão propõe outro suplemento, outra possibilidade de leitura, usando a fotografia à luz das teorias desconstrutivistas, que entendem a tradução como suplemento, transbordamento do texto traduzido, suprindo “faltas” ou lacunas e possibilitando a sobrevida da obra que a antecedeu, não devendo ser vista sob a ótica hierarquizante, mas como resultado da não existência de limites para interpretações e suplementos.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

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