Simpósio: O leitor/tradutor diante dos possíveis do texto literário

Coordenadoras:
Maria Elizabeth Chaves de Mello (UFF)
Maria Ruth Machado Fellows (UERJ)

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O simpósio abordará questões pertinentes à tradução literária, partindo da constatação das possibilidades de sentidos, provocadas pela indeterminação do texto literário, e do fato de que, enquanto tradutores, somos, também, leitores. Procuraremos refletir, durante a realização dos debates, sobre a tarefa e as funções do tradutor hoje,  consciente de que as palavras não correspondem ao que se quer retratar, na passagem de um idioma para o outro. Ou, como afirma Umberto Eco, o tradutor procura dizer “quase a mesma coisa” que o texto original. Essas constatações já nos fornecem um vasto material de indagação e discussão teórica,  a serem realizadas com os membros do simpósio.

 

Local: Sala 231, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 A tradução face à polissemia do texto literário
Maria Elizabeth
Chaves de Mello
(UFF)
Poema traduzido: boa tradução ou bom poema?
Maria Ruth Machado Fellows
(UERJ)
Rosa, Couto e a questão da traduzibilidade
Stela Maria Sardinha Chagas de Moraes
(UERJ, AF-Niterói)
As relações França-Brasil sob o viés da tradução
Jacqueline Penjon
(Université de Paris 3, Sorbonne Nouvelle)
13:30-15:00 Traduzir a palavra teatral sob o risco do texto
Olinda Kleiman
(Université de Lille 3)
Cinema e surdez: leitura e interpretação de uma realidade representada
Eduardo Felipe Felten e Émile Cardoso Andrade
(UEG)
A tradução intersemiótica e o texto digital
Ricardo Portella de Aguiar
(FAETEC-RJ)
As tramas da
construção de uma
antologia
Alessandra Fontes Carvalho da Rocha
(UFF)
15:30-17:00 Nioque antes da primavera
Solange Rebuzzi
(UFF/Faperj)
Traduzir é o
verdadeiro modo de ler um texto
Patrícia Gonçalves
(UFF)
Normas de redação e avaliação de uma tradução literária: possíveis limites para a (re)criação
Maria da Conceição Vinciprova Fonseca
(UniFOA,AEDB)
Paulo Leminski:
exercícios de
tradução e de escrita
Rosimar Araújo Silva
(UFF)

RESUMOS

1) As relações França-Brasil sob o viés da tradução
Jacqueline Penjon (Université de Paris 3, Sorbonne Nouvelle)

Depois de sua descoberta pelos portugueses, o Brasil despertou o interesse de outros povos, dentre eles o francês. Muitos viajantes se aventuraram além mar para conhecer o novo continente, dando início à produção de relatos de viagens que instigavam a curiosidade desse povo europeu.
Caminhando no tempo, vemos o interesse fazer a travessia de volta. A vinda de artistas e a presença de hábitos e costumes franceses trazidos por emigrantes europeus marcaram o início de uma influência que pode ser identificada não só no modo de vida, mas nas artes, sobretudo na arquitetura e na literatura, no Brasil.
Esses interesses que nasceram e permaneceram de um país para o outro são, em grande medida, credores e devedores de um trabalho de tradução. Tradução esta que não se limitou – e não se limita – às palavras, aos textos, aos discursos, mas que foi mais longe, permitindo o estabelecimento de relações entre essas duas culturas.

2) As tramas da construção de uma antologia
Alessandra Fontes Carvalho da Rocha (UFF)

O trabalho intitulado “As tramas da construção de uma antologia” tem como objetivo refletir sobre os desafios enfrentados por aqueles que realizam tal oficio, desde os primeiros momentos de separação dos trechos que irão compor a antologia até a revisão do texto final. Cabe salientar que se trata de um documento que necessita de tradução das passagens selecionadas, pois seu ponto de partida é o relato de experiências intitulado: Expédition dans les parties centrales de l’Amérique du Sud: de Rio de Janeiro à Lima, et de Lima au Para, de Francis de Castelnau. Ou seja, um texto em língua francesa, de grande interesse para estudos na área da Letras, História, Geografia, Antropologia, informando sobre aspectos da cultura brasileira do início do século XIX – daí a importância de sua construção e a necessidade de tradução em Língua Portuguesa. Dessa forma, procura-se observar o passo a passo para a realização da construção de uma antologia, sendo o texto original escrito em língua estrangeira.

3) A tradução face à polissemia do texto literário
Maria Elizabeth Chaves de Mello (UFF)

Partiremos da constatação, de Suzana Lages, de que a tradução literária provoca uma “multiplicação das interpretações, muitas vezes conflitantes entre si”. Qual seria, portanto, a tarefa do tradutor? Poderia ele perceber o tecido inviolável que pertence à língua na qual o texto foi escrito? Como, através do seu trabalho, poderia ele dar conta do amor, que, segundo Paul Valéry, une as diversas literaturas? Considerada assim, a tradução não seria apenas uma operação sobre uma língua estrangeira, um assunto para linguistas, mas também, e, principalmente, um processo que se relaciona com o pensamento do outro, sua estética e sua cultura, em uma perspectiva mais antropológica e literária. Para o teórico da literatura, a tradução oferece, pelo menos, duas possibilidades de reflexão teórica: por um lado, ela supõe uma representação prévia da cultura de partida do texto original; por outro, o tradutor garante, através do seu trabalho, a sobrevida da obra; as traduções multiplicam as faces da obra original e dão aos leitores novas possibilidades de leituras, de interpretação.

4) A tradução intersemiótica e o texto digital
Ricardo Portella de Aguiar (FAETEC-RJ)
Vivemos em um mundo imerso na Tecnologia. Não há lugar fora do alcance dos computadores e de seu vírus intelectual, o software: texto que ocupa, na tecnologia das tecnologias, o centro de criação do Mundo Virtual. Nesse emaranhado de códigos, encontramos a mais nova forma de tradução, a programação de computadores – a produção do Texto Digital. Trata-se de uma forma de tradução tão radicalmente diferente da habitual que os termos convencionalmente utilizados no jargão literário não são suficientes para significá-la. O mundo existe para ser representado em software. O ator dessa façanha de tradução intersemiótica não é apenas um conhecedor profundo das linguagens técnicas, tampouco um escrivinhador de textos ou um tradutor interlingual, mas um novo personagem, o Tecnoescritor: Escritor-Tradutor-Cibernético que não se limita a transmutar o mundo em objetos digitalizados. Este novo artista interpreta o mundo, considerando o contexto de outros textos, produzidos por outros Tecnoescritores igualmente importantes. É da produção do Texto Digital – um processo de tradução intersemiótica inserido na Literatura Virtual – que trataremos nesse trabalho.

5) Cinema e surdez: leitura e interpretação de uma realidade representada
Eduardo Felipe Felten e Émile Cardoso Andrade (UEG)

O presente trabalho defende o cinema como literatura e remonta, a partir da ótica do cinema, a variadas interpretações do indivíduo surdo e suas responsabilidades sociais. As produções cinematográficas disponíveis que retratam a surdez nos dão a possibilidade de ler e interpretar a postura do sujeito surdo no cenário social atual, realidade retratada e reconhecida pela comunidade norteamericana, expressa por meio de um de seus principais artefatos culturais: a indústria cinematográfica. O discurso fílmico projeta o sujeito na perspectiva do corpo social historicamente em processo, o que permite interpretações de misteriosas identidades de atos subversivos de temperamento de uma comunidade pouco compreendida que passeia pelo campo da ficção e, ao mesmo tempo, representa a realidade.
Passear entre o “mundo surdo” e o “ouvinte” traz à tona conflitos existentes, que remetem ao passado de muitos surdos retratados pelo olhar da sétima arte; compreender esses conflitos faz parte do trabalho daqueles que participam da comunidade surda. A identidade é reconhecer-se como indivíduo de uma sociedade: lutar pela compreensão e permitir ser compreendido.

6) Nioque antes da primavera
Solange Rebuzzi (UFF/Faperj)

Este trabalho consiste na apresentação do livro bilíngue Nioque antes da primavera do poeta Francis Ponge, editado pela Lumme no final de 2012, e de sua tradução. A partir de uma pequena leitura do texto pongiano em português, podemos pensar a questão do impossível em tradução, e apenas comentar a experiência singular que vem se desdobrando a partir do trabalho de tese de doutorado sobre João Cabral de Melo Neto, quando o livro-poema de Ponge La Chèvre/ A Cabra, em um dos capítulos, foi traduzido. O “impossível” será tomado no sentido lacaniano do termo, ou seja, abordando a impossibilidade de se dizer “tudo” na linguagem, na língua de cada um.

7) Normas de redação e avaliação de uma tradução literária: possíveis limites para a (re)criação
Maria da Conceição Vinciprova Fonseca (UniFOA, AEDB)

É preciso insistir na qualidade literária dos textos ficcionais traduzidos; entretanto, sabe-se da dificuldade de estabelecer parâmetros estáveis de definição e avaliação para o texto literário, original ou traduzido, por serem arte. Tais considerações levaram a propor, como enquadramento para a tradução literária, cinco valores: a leveza, a rapidez, a visibilidade, a exatidão e a multiplicidade, descritos por Ítalo Calvino em sua obra Seis propostas para o próximo milênio ([1988] 2006). Este trabalho traz exemplos da possibilidade de realização dessa proposta, no cotejo das obras The kite runner (2003), de Khaled Hosseini, e sua tradução no Brasil, O caçador de pipas (2005), por Maria Helena Rouanet. Na análise dos textos cotejados foram procurados os elementos que constroem os valores acima nomeados, segundo a orientação de Calvino. A presença dos valores em ambas as obras indica que a primeira é um texto literário e a segunda, não uma tradução de literatura, mas uma tradução literária. Indica também que os valores descritos por Calvino já são por vezes usados e, portanto, este trabalho pode contribuir para sistematizar tal uso.

8) Paulo Leminski: exercícios de tradução e de escrita
Rosimar Araújo Silva (UFF)

A proposta deste trabalho é investigar os procedimentos de escrita de Paulo Leminski (1944-1989) em sua atividade de tradução, com especial atenção para dois trabalhos de John Lennon: Lennon on his own write (1964) e A spaniard in the works (1965), publicados, no Brasil, numa edição bilíngue com o título Um atrapalho no trabalho (1985). Desenvolvendo um projeto tradutório próximo ao que Haroldo de Campos define como transcriação, é possível ver uma prática que se vale também de uma escrita crítica em paralelo. Assim, com o ensaio “Lennon rindo”, o poeta paranaense apresenta uma interessante reflexão sobre as dificuldades e os percursos empregados para traduzir tais obras, dando a ver que, como leitor e admirador do beatle, ele acaba encontrando um lugar de trânsito para seu próprio exercício poético. Enfatiza-se neste trabalho o recurso do portmanteau utilizado por Lennon e reatualizado por Leminski.

9) Poema traduzido: boa tradução ou bom poema?
Maria Ruth Machado Fellows (UERJ)

Paul Valéry considera que “o trabalho do poeta é muito menos procurar palavras para suas ideias do que ideias para suas palavras”. Esta definição nos leva a um entendimento de “Poema” como uma composição indissolúvel de forma, som e sentido, e sua tradução, muito mais que uma simples transposição de sentidos.
Se cada palavra em um poema estabelece uma rede de relações com outras palavras nele contidas, produzindo uma série possibilidades, como traduzi-lo? Transpondo simplesmente o sentido? Atendo-se às questões de forma: simetria, correspondência linha por linha, comprimento e número de sílabas, rimas, aliterações etc? Traduzindo seus “possíveis”?
Quando um poema é traduzido, que critérios estabelecer para a avaliação do resultado: boa tradução ou bom poema? Esse trabalho caberia somente a um poeta?
Muitas dessas questões se apresentam ao tradutor que se propõe a traduzir um poema. Talvez elas escondam uma outra bem mais contundente: Esse é um trabalho de tradução ou seria uma ousadia?

10) Rosa, Couto e a questão da traduzibilidade
Stela Maria Sardinha Chagas de Moraes (UERJ, AF-Niterói)

Nascido no interior de Minas Gerais, médico dedicado e diplomata renomado, Guimarães Rosa sempre deu provas de sua inclinação para línguas.Daí, a linguagem rica e pitoresca, cheia de regionalismos, presente em sua obra. Publicado em 1962 e muito difundido pelos meios de comunicação, Primeiras Estórias reúne vinte e um contos que, de acordo com Renard Perez, dão prova de “surpreendentes pesquisas formais” que conferem ao texto um caráter de beleza e estranhamento, a um só tempo.
Nascido em Beira, em 1955, biólogo por formação, jornalista e militante do FRELIMO, Mia Couto é um dos autores contemporâneos de língua portuguesa mais estimulantes graças a sua criatividade do ponto de vista lexical e semântico. Esses verdadeiros “exercícios de língua e expressão”, que se depreendem de forma muito nítida em Estórias Abensonhadas, remetem ao que Cristiane Costa define como um “traço de família” entre a obra de Mia Couto e Guimarães Rosa.
Um estudo de caráter comparatista entre os trabalhos desses dois grandes nomes da literatura lusófona parece se impor, portanto, de maneira indubitável.
Mas, seriam esses textos “traduzíveis”?

11) Traduzir a palavra teatral sob o risco do texto
Olinda Kleiman (Université de Lille 3)

A partir de uma reflexão motivada por uma experiência pessoal – a tradução para o francês de uma farsa do repertório vicentino –, propõe-se esta comunicação reexaminar o processo já por si complexo da tradução literária, neste caso dificultado pela especificidade da palavra espetacular e seu pertencimento a uma arte que se quer da linguagem, mas não só. Submetido a tensões lúdicas que fortemente se inscrevem num jogo de conivências múltiplas, associando autor, encenador, ator e público, conjugando talento criador e arte cênica, o espetáculo, que qualificarei de “total”, é também tributário das expectativas e da perspicácia do espectador, que vê e ouve, e cuja apreensão é susceptível de ser contaminada pelas reações, no instante, do resto do público.
São estes fenômenos, com os quais o tradutor do texto dramático – já que de texto inevitavelmente se trata –, se vê confrontado, que serão prioritariamente analisados, no âmbito de um questionamento sobre o ato de tradução da palavra que na realidade não é lida mas ouvida, contrariamente ao que acontece ao tradutor – leitor – chamado a traduzir o visto e lido, e não o ouvido, sob o risco da palavra escrita.

12) Traduzir é o verdadeiro modo de ler um texto
Patrícia Gonçalves (UFF)

Italo Calvino, em 1982, participou de um evento sobre tradução com um texto assim intitulado. Essa frase pode ser uma provocação ou uma verdade, dependendo de quem a lê, mas não se pode negar que o tradutor é a ponte essencial para aqueles que não dominam a língua de partida do livro traduzido. Ao longo do texto, Calvino disserta sobre as dificuldades em traduzir uma língua minoritária, sobretudo num país em que os escritores, segundo Calvino, não terminam as frases, deixam os discursos inacabados, cabendo ao tradutor decidir como adaptar essas reticências na língua de chegada, buscando um porto mais ou menos seguro naquilo que é definido como indeterminação da tradução. Tentar dizer quase a mesma coisa é tarefa das mais árduas, pois significa escolher um sentido dentre tantos possíveis para o texto e, mesmo que a decisão pareça a mais correta, há sempre o risco de ter-se tomado, em algum momento, a estrada errada. Nessa margem frágil que permeia os sentidos, a tradução tem seu ponto exato, difícil de perceber ao traduzir, gritante aos olhos do leitor e, desse ponto de partida, pretendemos refletir sobre algumas falas de Calvino.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

One thought on “Simpósio: O leitor/tradutor diante dos possíveis do texto literário

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