Simpósio: Intertextualidade, Autoria e o Tradutor

Coordenadoras: Luana Ferreira de Freitas (UFC/UFSC) & Mamede Mustafa Jarouche (USP)

Any text is constructed as a mosaic of quotations; any text is the absorption and transformation of another. (Kristeva, 1980: 66)

`The text is a tissue of quotations drawn from the innumerable centres of culture` (Barthes, “The death of the author” in Image, music, text 1977)

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A expressão `intertextualidade`, que foi empregado inicialmente por Julia Kristeva nos anos 60s, foi usada não apenas para descrever as influências reflexivas entre escritores e suas obras, como também para abordar o papel do aparato literário paratextual sem a necessidade de recorrer ao conceito ideológico de autoria predominante a partir do Romantismo.

A intertextualidade subverte o conceito de um texto sendo uma entidade hermeticamente lacrada e demonstra como as práticas e os textos literários se influenciam, tanto intra quanto interlinguisticamente. Também pode destacar as redes de relacionamentos que questionam as ideias de originalidade, escritura e re-escritura e que, portanto pode iluminar o campo da tradução literária e estudos de tradução como uma disciplina.

A teoria dinâmica e heterogênea do polissistema de Even-Zohar preconiza uma “multiplicity of intersections” (Poetics Today, 1979:291) dentro e entre as culturas, línguas, literaturas e gêneros; e com trabalhos mais recentes tais como o République mondiale des lettres de Casanova (1999), pode defender a simbiose e a reflexão sobre as influências e poderes de algumas culturas, práticas e textos sobre outros. Estas teorias podem igualmente delinear um quadro mais amplo para a investigação de intertextualidade dentro do campo de tradução literária e de como as práticas e os textos literários podem influenciar outras culturas linguísticas.

Este simpósio pretende discutir a intertextualidade  nas obras literárias traduzidas, o papel do tradutor e suas estratégias diante do fenômeno intertextual e a influência intercultural e interliterária que a tradução pode exercer.

Local: Sala 228, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00- 11:30
13:30-15:00 “Estratégias de nobilitação estética nas minhas traduções do árabe”.
Mamede Jarouche (USP)
Hamlets argentinos: tradução, adaptação e intertextualidade”.
Maria Clara Versiani Galery (UFOP)“A imagem de Alessandro Baricco no Brasil através de seus tradutores”.
Rúbia Nara de Souza (UFSC)
“Autor, tradutor, pseudotradutor.
De quem é essa obra?”
Dircilene Fernandes Gonçalves (USP)
15:30-17:00 “Laurence Sterne no Brasil”.
Luana Ferreira de Freitas (UFC)
As mil e uma noites para Jorge Luis Borges e Italo Calvino: influência na obra e na maneira de ver a tradução”. Alessandra Matias Querido (UFSC)
“Virginia Woolf traduzida: intertextualidades em The Hours de Michael Cunningham (1998)”.
Yuri Jivago Amorim Caribé (USP/UNINOVE)

RESUMOS

1) “Estratégias de nobilitação estética nas minhas traduções do árabe”
Mamede Mustafa Jarouche (USP)

Literatura é também uma relação estética com a linguagem, e nesse campo, bem como em outros, tais relações por assim dizer estéticas, variam no tempo e no espaço. Um texto agradável em árabe não necessariamente o é em português, e vice-versa. Aliás, a variação ocorre no interior de uma mesma língua, conforme a distância temporal. O que terá parecido, conforme o consenso dos seus contemporâneos letrados, um bom discurso em árabe no século XIII talvez assim não pareça a um leitor ou ouvinte árabe de hoje. No caso da tradução daquilo que hoje se lê como “texto” (com todas as implicações conceituais do termo) árabe do século XIII ao português contemporâneo, o tradutor se vê diante de uma porção de anacronismos que deve, de algum modo, remediar. Como tradutor de “textos” árabes antigos há mais de uma década, vi-me e constantemente me vejo a braços com essa questão: como, sem cair na infidelidade, conferir alguma eficácia estética – supondo-a existente no original – à tradução em português daquilo que hoje se lê como texto árabe antigo?

2) “Laurence Sterne no Brasil”
Luana Ferreira de Freitas (UFC)

Desde a citação ao autor de Tristram Shandy e A Sentimental Journey que Brás Cubas faz na sua “Nota ao leitor”, na primeira página das suas Memórias Póstumas, Laurence Sterne é motivo de curiosidade e objeto de estudo de machadianos dentro e fora do Brasil. A comunicação que apresento aqui busca retomar o percurso que Sterne fez no Brasil por meio das traduções dos dois romances do autor.

3) “As mil e uma noites para Jorge Luis Borges e Italo Calvino: influência na obra e na maneira de ver a tradução”.
Alessandra Matias Querido (UFSC)
Jorge Luis Borges sempre falou sobre a influência da obra “As mil e uma noites” em seu trabalho e também dedicou um ensaio para comentar as traduções da obra citada. Italo Calvino também utilizou este texto como fonte de inspiração, citando-o, inclusive, na obra “Se um viajante numa noite de inverno”. Ambos os autores se debruçaram sobre a ideia de que o texto estaria sempre em construção e, assim, a tradução seguiria este caminho. A proposta desta comunicação é discutir como a obra “As mil e uma noites” serviu de recurso intertextual para Jorge Luis Borges e Italo Calvino e mostrar que ambos os autores utilizaram-na para falar de Teoria da Tradução.

4) “Autor, tradutor, pseudotradutor: De quem é essa obra?”
Dircilene Fernandes Gonçalves (USP)

Criada pela escritora norte-americana Barbara Wilson, Cassandra Reilly é a personagem principal de uma coletânea de contos policiais. Uma tradutora que vive num exílio voluntário e nômade. Na trajetória da personagem ao longo dos contos, tradução e ficção se misturam, culminando na ficcionalização do próprio ato tradutório quando ela decide produzir sua própria obra de ficção, mas não assume a autoria. Num caso típico de pseudotradução, Cassandra inventa a persona de uma escritora argentina que vive no isolamento, colocando-se apenas como sua tradutora. Em sua obra, imbuída da intertextualidade de sua bagagem profissional, Cassandra cria uma aventura pseudotradutória cujo desfecho leva a um confronto inusitado que coloca em xeque os papéis de autor e tradutor.

5) “Hamlets argentinos: tradução, adaptação e intertextualidade”
Maria Clara Versiani Galery (UFOP)

Ao elaborar a teoria do polissistema literário, Even-Zohar deu grande destaque ao papel que a literatura traduzida ocupa no polissistema que a integra, atuando como força inovadora para culturas emergentes. Pelo viés da literatura comparada, Carvalhal reitera que “a tradução alimenta a criação literária”. São modos distintos de conjugar intertextualidade e prática tradutória. Pretendo discutir como a obra de Shakespeare na Argentina fomentou a criação de diversas peças teatrais em que temas e personagens shakespearianos são reelaborados em novos (con)textos, abordando uma série de questões estéticas, sociais e políticas. É significativo lembrar que Shakespeare foi introduzido na America Latina por meio de traduções para o castelhano das notórias adaptações neoclássicas francesas realizadas por Ducis. É, sobretudo, Hamlet que foi apropriado por autores distintos. Assim, o trabalho pretende enfocar a “absorção e transformação” de Hamlet por dramaturgos argentinos como um processo intertextual mediado pela tradução.

6) “Alessandro Baricco no Brasil pelos seus tradutores”
Rúbia Nara de Souza (UFSC)

Na tentativa de redefinir a inserção do escritor italiano Alessandro Baricco no sistema literário brasileiro e o caminho percorrido por suas obras traduzidas no Brasil, este trabalho conta com o depoimento de seus tradutores sobre seus próprios processos tradutórios referentes às obras de Baricco: se houveram leituras do mesmo autor precedentes à tradução, se houve contato ou influência de outros textos e/ou tradutores. Sua inserção no Brasil tem seu início em 1997, através de um projeto pessoal da Prof.a Dr.a Roberta Barni com a tradução de Oceano Mare. A partir daí, outras sete obras foram publicadas no Brasil, sendo três delas por Roberta Barni e as outras quatro por quatro tradutores diferentes. Considera-se o tradutor como figura principal pela sua atuação direta na formação do sistema literário nacional, bem como a realidade desta figura dentro do sistema literário, sua invisibilidade, seus limites e o exercício de sua profissão. Com uma visão mais ampla da literatura e da representação da literatura estrangeira na formação de uma literatura nacional, este trabalho baseia-se na teoria dos polissistemas de Itamar Even-Zohar e em um dos seus desdobramentos, o conceito de sistema mundo e república mundial das letras de Pascale Casanova.

7) “Virginia Woolf traduzida: intertextualidades em The Hours de Michael Cunningham (1998)”
Yuri Jivago Amorim Caribé (USP/UNINOVE)

Este trabalho tem como objetivo discutir alguns aspectos relacionados às intertextualidades de obras da escritora inglesa modernista Virginia Woolf presentes no romance americano contemporâneo The Hours, de Michael Cunningham (1998). Essa obra, traduzida interlingualmente em vários idiomas, é marcada pelo uso de expressões, palavras e fraseologias tipicamente virginianas. Além da questão lexical, temos ainda cenários e até nomes de personagens inspirados nas seguintes obras dessa autora: o romance Mrs. Dalloway (1925), um dos volumes da coletânea de cartas da escritora, qual seja The Letters of Virginia Woolf vol. VI e ainda o volume II da série The Diary of Virginia Woolf, sendo essa utilização consentida pela patente detentora dos direitos das obras de Woolf. O que percebemos, inclusive com base em entrevista concedida pelo próprio Cunningham, é um desejo particular desse autor em contar não suas próprias histórias, mas a história de Woolf e as histórias que Woolf contou.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

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