Simpósio: DIÁLOGOS ENTRE OS ESTUDOS DA TRADUÇÃO E A PSICANÁLISE


Coordenadores:

Marcelo Bueno de Paula (UFSC)
Pedro Heliodoro Tavares (USP)

[Download auf Deutsch] | [Scaricare in italiano] | [Descargar en español] | Download provisional translation into English]

As relações entre Tradução e Psicanálise remontam às primeiras concepções freudianas sobre o psiquismo amparadas nas questões atinentes à linguagem. Antes mesmo do surgimento da psicanálise, nos Estudos sobre histeria, o sintoma torna-se um signo ou sintagma convertido em sofrimento corporal, a ser recuperado e traduzido pela via do simbólico através da talking cure. Mas é na sua obra mestra, A interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung), que se coroa a relação de proximidade entre o trabalho analítico e o ato tradutório, entre as linguagens inconsciente e consciente.

Se por um lado as proposições do fundador da Psicanálise nos convidam a pensar as relações entre estes domínios, a discussão sobre esta interface se renova hoje a partir da entrada de sua obra para o domínio público em 2010, a partir de quando finalmente passamos a contar com as primeiras versões de Freud para a língua portuguesa feitas diretamente do alemão. Percebemos atualmente, portanto, uma “fecunda desordem” nos estudos da obra de tão influente autor, que finalmente se vê traduzido em diferentes propostas de seu estilo e de terminologia.

Entretanto, na verdade, as relações entre a Psicanálise e os domínios do conhecimento relacionados à Linguagem conta com uma tradição de décadas. Uma tradição que muito deve ao retorno proposto por Jacques Lacan à obra de Freud amparado nas proposições de linguistas como Saussure e Jakobson por um lado, e de grandes nomes da Literatura como Shakespeare e Sade por outro. A partir de então, se expande o campo das interrogações possíveis entre os domínios das línguas, dos estilos, da escrita, da fala, da singularidade, da interpretação. Cabem, portanto, neste simpósio, diferentes formas de propostas que lancem luz sobre as possíveis relações entre estes domínios.

 

Local: Sala 205, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 A olaria da língua: o oco e suas escoras
Paulo Sérgio de Souza Jr.
(Unicamp)
Comentario sobre la intromistura de las lenguas en la traducción de textos psicoanalíticos
Alba
Escalante
(UnB)
Traduzir o desejo – Psicanálise e linguagem, de Marta Marín-Dòmine: uma breve resenha
Emiliano de Brito Rossi
(USP)
Interpretar e transferir: tarefas impossíveis?
Pedro Heliodoro Tavares
(USP)
13:30-15:00 A representação da busca pelo Self nas obras “O lago dos Cisnes” e “Black Swan”
Priscilla Cordolino Sobral
(UFBA)

S. Freud e C.S.Lewis: um debate fomentado pela tradução
Gabriele Greggersen
(UFSC)

A língua, estrangeira: aspectos da autotradução em Beckett e Huston
Julia V. Magalhães
(UFMG)
15:30-17:00 O Teatro da peste, a psicanálise e a tradução
César Augusto de Oliveira Shishido
(USP)
O ciúme de Freud em três diferentes abordagens tradutórias
Juliana de Abreu
(UFSC)
Luciana Graziuso
(UFSC)
O conceito de tradução do inconsciente em A interpretação dos sonhos, de Freud
Marcelo Bueno de Paula
(UFSC)

RESUMOS

1) A língua, estrangeira: aspectos da autotradução em Beckett e Huston
Julia Magalhães (UFMG)

A paradoxal experiência do bilinguismo e de escrever em uma língua estrangeira —metaforicamente a situação de estar sempre em exílio — têm um impacto evidente na escrita dos autotradutores Samuel Beckett e Nancy Huston. A decisão de Beckett de escrever em francês, além de se submeter a um esforço contínuo de tradução, está alinhada a uma proposta estilística e, em uma perspectiva mais ampla, a um projeto literário. Huston, que também não tem uma posição ingênua frente ao bilinguismo, sabia que, quem tem muitas línguas, não “tem”, de fato, língua alguma. A psicanálise se utiliza de um conceito mais amplo de tradução, como um processo que dá origem à constituição de um sujeito psíquico, sendo condição mínima pra formação do próprio ego. Essas obras, portanto, servem como testemunho desse caráter primordialmente estrangeiro da língua— sendo ela a materna ou não. Considerando as várias consequências possíveis do afastamento da língua materna, pretendemos, sob a perspectiva da psicanálise, entender o impacto dessa escolha estilística nessa escrita “estrangeira”.


2) A olaria da língua: o oco e suas escoras

Paulo Sérgio de Souza Jr. (Unicamp)

A reviravolta que alguns estudos sobre tradução foram produzindo — ao apontarem para uma revogação, no domínio do texto, das garantias da originalidade — fez com que se começasse a depreender que uma diferença basilar entre o original destituído e o suposto na condenação das belles infidèles é que, no segundo caso, o original é visto como um impedimento e, por isso mesmo, a caução de uma certeza na prática tradutória. Ora, o original não opera justamente como algo cuja lei por ele instituída — e que não se aplica a ele próprio, pois seria de sua natureza gozar dos direitos supostamente inalienáveis de sua originalidade — delimita o alcance das suas traduções, garantindo-as de certa forma? Com isso, ao reconhecer a atividade tradutória como uma prática cujo expediente é o atravessamento de fronteiras, a unidade do objeto da tradução se vê prejudicada, e a questão do ideal tradutório encontra-se subvertida por um exercício com o próprio limite: assumir aquilo que, na língua, não afiança — o não idêntico (em termos jakobsonianos, a semelhança na diferença); o não unívoco (em termos lacanianos, o fato de que um significante só remete a outro); o ex-cêntrico (em termos freudianos, o fato de que o Eu não é senhor em sua própria casa). E assim, graças ao que não se sabe sabendo daquilo que se faz enquanto tradutor, vislumbra-se a possibilidade de implementar numa língua os ocos que outrora ditaram, numa outra, tanto o impossível de dizer quanto o impossível de não se dizer de uma certa maneira

3) A representação da busca pelo Self nas obras “O lago dos Cisnes” e “Black Swan”
Priscilla Cordolino Sobral (UFBA)

Inúmeras são as relações estabelecidas entre psicanálise e tradução, porém outro aspecto pode ainda ser observado, tal como a tradução de imagens que constituem em si símbolos do inconsciente. Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, concebe que a psique é também formada pelo inconsciente coletivo que tem por conteúdos os arquétipos. Segundo Jung o self é um arquétipo que se manifesta mais genuinamente em mitos, contos populares e lendas que são caracterizadas como expressões simbólicas do drama interno. Seguindo este pressuposto, o trabalho analisa como a busca pelo self é representada no libreto da peça de balé “O lago dos Cisnes” (1877) do compositor Tchaikovsky e sua respectiva tradução no filme “Black Swan” (2010) do diretor Darren Aronofsky. Pressupõe-se, no trabalho interpretativo, que a busca pelo self no balé se caracteriza pela junção do eu com o outro em união amorosa seguida de morte e renascimento enquanto que o filme traz a luta do eu com sua própria sombra.

4) Comentario sobre la intromistura de las lenguas en la traducción de textos psicoanalíticos
Alba Escalante (UnB)

En nota de pie de página del libro O sujeito e seu texto aparece la palabra Intromistutra. (Palazzo Nazar, Teresa, 2009, p.25) Ese vocablo es una de las traducciones utilizadas para el immixing que Jacques Lacan utiliza en el título de la conferencia dictada en 1966 en la ciudad de Baltimore: “Of Structure as an Inmixing of an Otherness Prerequisite to Any Subject Whatever”. Ese immixing, que algunas veces aparecerá en inglés y otras en francés, es uno de los hilos a partir de los cuales Lacan presenta la distinción entre ser, individuo y sujeto. Este último es asunto –sujet en francés, también traduce asunto, tema, materia– que compete al hablante, y no sólo a este, sino a la localización entre el hablante y el Otro. La idea arrojada por el vocablo es, en sí misma, pertinente para ponerla a circular como subsidio teórico de la traducción. Otro valor, sin embargo, consiste en sondear las diferentes apariciones del vocablo en las traducciones de textos psicoanalíticos. El objetivo de esta comunicación es presentar, a partir del cotejo de textos de Jacques Lacan traducidos en Brasil y en algunos países hispánicos, las diferentes presentaciones del vocablo. El recorte permitirá plantear una discusión general sobre el modo de operar la traducción en psicoanálisis y, en el caso específico de textos producidos en portugués y español dentro de ese campo, profundizar en las especificaciones que nos plantea la actividad traductora en el mencionado par de lenguas.

5) Interpretar e transferir: tarefas impossíveis?
Pedro Heliodoro Tavares (USP)

Em Análise terminável e interminável (Die endliche und die unendliche Analyse, 1937) Sigmund Freud apresenta o psicanalisar, seu fazer clínico, juntamente com outros dois fazeres (governar e educar), como algo da ordem do impossível, por sempre alcançarem somente sucessos insatisfatórios. A essas profissões/fazeres/tarefas ditas impossíveis, gostaríamos de acrescentar o fazer tradutório. Para tecer tal discussão, nos valemos de dois vocábulos que convidam de forma privilegiada à ambiguidade e ao equívoco: übertragen, na língua alemã de Freud e interpretar em nossa língua portuguesa. Entretanto, o impossível da tarefa, não justifica a pura e simples renúncia, para aqui incluirmos a equívoca polissemia da Aufgabe benjaminiana em nossas reflexões.

6) O ciúme de Freud em três diferentes abordagens tradutórias
Juliana de Abreu (UFSC) e Luciana Graziuso (UFSC)

Após 70 anos da morte de Freud suas obras caíram em domínio público e desde janeiro de 2010 existe um movimento no Brasil em relação a tradução de suas obras diretamente da língua alemã. A presente comunicação tem como objetivo a comparação de três traduções a respeito do texto Einfersucht, presente na obra Über einige neurotische Mechanismen bei Eifersucht, Paranoia und Homosexualität escrita por Sigmund Freud e publicada pela primeira vez em 1922. As versões analisadas são a tradução Standart brasileira, oriunda de uma tradução do inglês, uma tradução automática, feita do Google Translate, e, por fim, uma tradução livre, realizada por duas alunas do Curso Pós-Graduação em Estudos da Tradução PGET-UFSC. Na análise são comparadas semelhanças e diferenças lexicais das três traduções, assim como o estilo de cada texto traduzido. As versões apresentam mais diferenças que semelhanças lexicais e a grande surpresa é a qualidade da tradução automática.

7) O conceito de tradução do inconsciente em A interpretação dos sonhos, de Freud
Marcelo Bueno de Paula (UFSC)

A obra inaugural da psicanálise, A interpretação dos sonhos (Die Traumdeutung, 1899), de Sigmund Freud, é a primeira grande abertura da “caixa-preta” do inconsciente. Em uma famosa passagem do livro, Freud compara o trabalho do analista ao do decifrador de hieróglifos. O sonho seria como uma escrita hieroglífica e sua interpretação se assemelharia à realizada por Champollion, o qual possibilitou o resgate da cultura e história do Egito antigo a partir da solução do mistério da Pedra de Roseta. Assim, segundo o texto freudiano, o método psicanalítico consistiria numa espécie de tradução do inconsciente, concepção que pretendo discutir.

8) O Teatro da peste, a psicanálise e a tradução
César Augusto de Oliveira Shishido (USP)

A presente proposta de comunicação fundamenta-se a partir de uma análise empreendida com base na concepção da peste elaborada por Antonin ARTAUD em O Teatro e seu Duplo, com o intuito de expor como referido conceito pode contribuir para o campo da Psicanálise, valendo-se do aparato instrumental dos estudos sobre a tradução. Adotando-se uma perspectiva centrada na concepção de que a arte e a literatura são campos aliados da psicanálise, tomaremos como ponto de partida a célebre frase de Sigmund FREUD sobre a vinculação da peste com a Psicanálise em sua chegada aos Estados Unidos da América, para compreender como o estudo da tradução das obras completas freudianas, sobretudo em sua recepção na França, pode ser considerada como um ato subversivo e pestilento, ainda mais em comparação ao viés médico adotado pelos países de língua inglesa, a partir da Standard Edition, organizada por James STRACHEY.

9) S. Freud e C.S.Lewis: um debate fomentado pela tradução
Gabriele Greggersen (UFSC)

Os equívocos que se revelaram, a partir da crítica de Bettelheim, do reavivamento dos anos 90 nos estudos em torno de Freud e na disponibilização da obra original em formato eletrônico, a partir do séc. XXI são reveladores das relações existentes entre tradução, filosofia e psicologia. A principal acusação contra as traduções inglesa (Standard Edition) e Standard Brasileira é de um cientificismo no sentido americano, pragmatista, que o autor, que era um humanista, não possuía. Essa hipótese foi verificada a partir de originais do autor, principalmente de O Futuro de uma Ilusão e de demais obras de Freud sobre o conceito de religião como ilusão. Conclui-se que o tradutor deve estar atento à Weltanschauung (visão de mundo) do autor a ser traduzido, que torna a reflexão filosófica e teológica indispensável para a sua prática. Assim, a interdisciplinaridade entre essas áreas se torna fundamental para o avanço de todas elas.


10) Traduzir o desejo – Psicanálise e linguagem, de Marta Marín-Dòmine: uma breve resenha
Emiliano de Brito Rossi (USP)

Nesta comunicação será apresentado um panorama do livro “Traduzir o Desejo – Psicanálise e Linguagem”, de Marta Marín-Dòmine, publicado originalmente em formato de tese de doutorado defendida pela autora no ano de 2001 no Departamento de Tradução e Interpretação da Universidade Autônoma de Barcelona. O livro abrange em seu espectro os princípios básicos da psicanálise de Sigmund Freud (primeiro capítulo) e parte da colaboração dada por Jacques Lacan à psicanálise, através da introdução de novos conceitos (segundo capítulo), fechando a primeira parte. Na segunda parte, a autora põe em relevo as noções de verdade, sentido e estilo, sempre vinculados a reflexões sobre tradução. A última parte é dedicada às conclusões. O interesse pelo livro se dá em vários níveis. Em primeiro lugar por sua temática repousar sobre o mesmo campo aberto por este simpósio. Além disso, terei a oportunidade de expor os bastidores do trabalho de tradução do livro, do catalão para o português. Nesse sentido, teremos vários portos visitados em nosso itinerário: uma amostra da recepção da psicanálise em Barcelona e a construção teórica empreendida pela autora ao unir os domínios da tradução e da psicanálise, passando pela tradução de obras freudianas em língua inglesa (consultadas pela autora), bem como por vários textos lacanianos lidos em francês. Ou seja, ao aportar no Brasil, esse livro traz consigo as marcas de sua trajetória, permitindo além da discussão de seus temas, uma reflexão sobre a variação terminológica vivida nos textos psicanalíticos lidos e traduzidos em diferentes línguas.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

Alemão: Melanie Strasser

Anúncios

One thought on “Simpósio: DIÁLOGOS ENTRE OS ESTUDOS DA TRADUÇÃO E A PSICANÁLISE

  1. Pingback: Lista de simpósios | ABRAPT

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s