Simpósio: As formas da retradução em literatura

Coordenadores: Émilie Audigier (PGET/UFSC) e Vitor Amaral (PIPGLA/UFRJ)

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É do entrosamento da literatura com a tradução que a prática da retradução retira seus frutos mais instigantes. O presente simpósio propõe pensar sobre esse diálogo por meio da investigação de aspectos práticos e teóricos da tradução literária nos gêneros poético, ficcional e dramático, enquanto processo que pode nutrir-se da análise de trabalhos tradutórios anteriores realizados sobre o mesmo texto. A retradução é o tema escolhido devido à sua relevância para o atual cenário acadêmico dos estudos sobre tradução, em que as ideias de pensadores como Antoine Berman, Henri Meschonnic, entre outros, têm estimulado prolífico debate, talvez ainda pouco difundido no Brasil. O objetivo deste simpósio é refletir sobre as formas da retradução, tanto a respeito do papel da retradução literária como mais do que simples escritura de uma nova tradução, quanto de questões éticas, estéticas e políticas envolvidas nessa prática que, embora tão antiga, somente nas últimas décadas tem sido teorizada.

Local: Sala 204, CCE, bloco A

HORÁRIOS

PERÍODO 24 25 26
10:00-11:30 Épica homérica no Brasil: tradução e retradução
Marcelo Tápia Fernandes
(Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária)
Da “Tireuse de cartes” à “Cartomancienne”, o bruxo retraduzido na França
Émilie Geneviève Audigier
(PGET/UFSC)
Tradução e retradução: leituras e releituras de Memorial de Aires
Luz Adriana Sánchez Segura
(PGET/UFSC)
Retraduções de Joyce no Brasil: o estado da arte
Vitor Alevato do Amaral
(PIPGLA/UFRJ)
O insólito nas retraduções de Dubliners, de James Joyce
Omar Rodovalho
(Unicamp)
A terceira via
(o Ulysses entre Cila e Caribde)
Caetano Waldrigues Galindo
(UFPR)
As retraduções de Finnegans Wake por Donaldo Schüler: tão longe e tão perto de James Joyce
Maria Teresa Quirino
(USP)
Retraduções de Viagens de Gulliver – das “terras desconhecidas” de Henrique Marques Jr. ao “pastiche de português setecentista” de Paulo H. Britto
Ana Maria Fonseca de Oliveira Batista
(PGET/UFSC)
Retraduzindo “The Oval Portrait”, de Edgar Allan Poe
Maria da Luz Alves Pereira
(UFMS) e Rauer Ribeiro Rodrigues
(UFMS)
Allan Poe (re)traduzido
Rodrigo Cardoso
(PGET/UFSC)
Transcriações poéticas d’O Sumiço: traduções e retraduções lipogramáticas de poemas de La Disparition, de Georges Perec – e outros
José Roberto Andrade Féres
(UFBA)

RESUMOS

1) “Allan Poe (re)traduzido”
Rodrigo Cardoso (PGET/UFSC)
O presente simpósio destina-se a realizar uma reflexão sobre a (re)tradução do conto Mystification do autor estadunidense Edgar Allan Poe para o português brasileiro, feita por mim. A obra de Poe é amplamente divulgada e conhecida no Brasil, tendo entre seus tradutores nomes de peso como Machado de Assis e Fernando Pessoa. Neste cenário, existe um número considerável de contos, como o Mystification, que só tiveram uma única tradução para o português, datada de 1944 pela Editora Globo, e que está esgotada nas livrarias. Partindo destas informações e das teorias contemporâneas da tradução, com foco na crítica etnocêntrica de Antoine Berman, proponho um diálogo sobre a realização desta tradução com cotejo entre texto fonte e traduções em outras línguas, como francês, espanhol e alemão.

2) “Da ‘Tireuse de cartes’ à ‘Cartomancienne’, o bruxo retraduzido na França”
Émilie Geneviève Audigier (PGET/UFSC)
A dimensão histórica e a reflexão teórica parecem essenciais quando se retraduz literatura. Após a primeira tradução francesa do conto “A Cartomante” de Machado de Assis, realizada por Adrien Delpech (1910), “La cartomancienne” foi traduzido duas vezes para o francês: “La tireuse de carte”, realizada por Philéas Lebesgue e Manoel Gahisto em 1925, publicada na revista Revue de l’Amérique Latine, e meio século depois, uma tradução de Maryvonne Lapouge-Petorelli, novamente publicada com o título “La cartomancienne” (1987). Por que, para quem, e como foi retraduzido este conto tão significativo na obra de Machado? A comunicação tratará das principais tendências destes tradutores franceses, recriando um conto com interpretações divergentes. Nosso objetivo é pensar a retradução na perspectiva da ruptura e da criatividade do tradutor, inscrito na história das traduções de Machado de Assis na França.

3) “Épica homérica no Brasil: tradução e retradução”
Marcelo Tápia Fernandes (Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária)
Após a tradução pioneira de Manuel Odorico Mendes, no Brasil do séc. XIX, a Ilíada e a Odisseia de Homero foram objeto, no país, de outras recriações em verso – baseadas em diferentes padrões metodológicos e estéticos –, que surgem como alternativas às traduções preexistentes. A comunicação tratará brevemente da identidade de cada (re)tradução e das relações que estabelece com as demais, considerando-se os trabalhos de Odorico Mendes, Carlos Alberto Nunes, Haroldo de Campos, Donaldo Schüler e Trajano Vieira, além de outras traduções parciais da poesia homérica.

4) “O insólito nas retraduções de Dubliners, de James Joyce”
Omar Rodovalho (Unicamp)
Enquanto o Ulysses motivou por aqui abordagens tradutórias tão discrepantes quanto as de Houaiss, Bernardina e Galindo, um mesmo furor tradutório difuso, partindo de múltiplas vertentes, parece não ter contagiado os tradutores do Dubliners, especialmente quando se atenta para detalhes da tessitura verbal que responderiam pela necessidade de variadas versões da obra, como o uso de coloquialismos e o insólito de seus vocábulos. O fato é que, no original, muitos desses experimentos demandam visivelmente a figura do comentador para serem compreensíveis, ao passo que um esforço similar quase não se percebe em nossos Dubliners, compenetrados que estão em oferecer uma prosa “intercomunicante já no nível superficial, porque vazada com elementos previamente notórios e consagrados” (Houaiss sobre a tradução francesa do Ulysses). Procurarei, pelo confronto do original com suas três versões brasileiras, apontar para pontos do Dubliners que seguem a demandar novas abordagens, novas tentativas de se apropriar daquilo que, justamente por intraduzível, continua a exigir retraduções desses contos.

5) “As retraduções de Finnegans Wake por Donaldo Schüler: tão longe e tão perto de James Joyce”
Maria Teresa Quirino (USP)
A partir da década de 1990, várias retraduções da obra de Joyce foram realizadas no Brasil. Enquanto Dublinenses (1993), de José Roberto O’Shea, e Um Retrato do Artista quando Jovem (1992) e Ulisses (2005), de Bernardina da Silveira Pinheiro, parecem seguir a tendência verificada por Berman (1985) de se aproximarem do texto original de Joyce e de responderem à necessidade de retraduzir os clássicos, Finnegans Wake/Finnicius Revém (1999-2003) e Finnício Riovém (2004), de Donaldo Schüler, assim como as primeiras traduções de fragmentos da obra pelos irmãos Campos alteram o papel do tradutor de Joyce para o de “recriador” e “co-autor”, liberando o tradutor das restrições da mera equivalência linguistico-cultural e conferindo à obra retraduzida um status canônico. Este trabalho pretende apresentar como a obra de Joyce retraduzida por Donaldo Schüler atingiu esse status e hipotetizar sobre a forte influência do habitus do tradutor (Simeoni, 1998) em seu papel de agente ao elevar as retraduções da última obra de Joyce ao patamar de grande obra na literatura brasileira.

6) “Retraduções de Joyce no Brasil: o estado da arte”
Vitor Alevato do Amaral (PIPGLA/UFRJ)
As retraduções de Joyce são um capítulo à parte em muitas literaturas. No Brasil, desde o final da década de noventa, aos poucos são preenchidas as lacunas que ainda existiam relativamente às traduções de suas obras. Em terras brasileiras, destacam-se, sem dúvida, A Portrait, Ulysses e Dubliners, este último com ao menos três traduções completas publicadas e diversos contos traduzidos separadamente para revistas ou antologias. O objetivo desta apresentação é situar o ouvinte com relação ao estado da arte das retraduções de Joyce no Brasil.

7) “Retraduções de Viagens de Gulliver – das ‘terras desconhecidas’ de Henrique Marques Jr. ao ‘pastiche de português setecentista’ de Paulo H. Britto”
Ana Maria Fonseca de Oliveira Batista (PGET/UFSC).
Nesta comunicação, discutem-se as formas de retradução de Viagens de Gulliver (Jonathan Swift, 1726) para o português, desde 1940 até os dias atuais, contemplando traduções do texto integral, dentre elas as de Cruz Teixeira, Octavio Mendes Cajado, Cláudia Lopes, José Moura Pimenta e Therezinha Monteiro Deutsch e abordando, tangencialmente, a adaptação feita por Clarice Lispector. A pesquisa verificou diferenças significativas entre essas retraduções e procurou contribuir para a história da tradução no Brasil, reinserindo-as em seus respectivos quadros: coleções (Clássicos Jackson, Os Imortais da Literatura Universal, Clássicos do Público), Círculo do Livro, e traduções não vinculadas. Os comentários são feitos a partir dos estudos descritivos de Lambert e Van Gorp (On Describing Translations). As retraduções são situadas em seu contexto temporal, cultural, e socioeconômico, incluindo os sistemas e “regimes” de tradução nos respectivos períodos, ou seja, as regras, normas ou convenções que governam a sua prática, tanto os fins ou “estratégias” quanto os meios ou “táticas” (Pym, 1998).

8) “Retraduzindo ‘The Oval Portrait’, de Edgar Allan Poe”

Maria da Luz Alves Pereira (UFMS); Rauer Ribeiro Rodrigues (UFMS)
A finalidade deste trabalho é apresentar uma retradução de “The Oval Portrait”, de Edgar Allan Poe (1809-1849), e discutir as traduções para o português, no Brasil, de Oscar Mendes (1944), José Paulo Paes (1987), Marcelo Bueno de Paula (2005) e Antônio Carlos Vilela (2006). Apresentamos essas traduções, comparando-as às nossas soluções, para solidificarmos nossas opções. Buscamos identificar como a estrutura dessas traduções está permeada de elementos que não somente mudam o sentido do texto de partida como também alteram percepções diversas daquelas estabelecidas pelo autor. Paralelamente, expomos passo a passo nossa proposta de tradução. A pesquisa é norteada pelas teorias de Berman (2002 e 2007) e pelos princípios defendidos por Poe nos ensaios “The Philosophy of composition” (1846) e “Review of Hawthorne’s Twice Told Tales” (1842), no qual defende que toda “palavra escrita” em uma composição deve levar “àquele único plano pré-estabelecido”, ou seja, ao “efeito”.

9) “A terceira via (o Ulysses entre Cila e Caribde)”
Caetano Waldrigues Galindo (UFPR)
A terceira margem do rio. Porque um caminho precisa ser balizado, há que ter fronteiras que o distingam. Assim, nos anos 10 a situação de um (re-)tradutor brasileiro do Ulysses, de James Joyce, era em certa medida, confortável. Os dois trabalhos até ali realizados (Antonio Houaiss, 1965; Bernardina Pinheiro da Silveira, 2005) ofereciam duas versões polares, duas leituras divergentes e até opostas. Era centrar. De outro lado, é claro (ou foi claro para mim) que a tradução de um romance dessas dimensões, com este grau de dificuldade, já é operação longa e custosa o suficiente sem que tenha de se imbuir do peso de um verdadeiro trabalho de análise contrastiva das versões anteriores para ser efetiva retradução. O que este trabalho pretende é conferir a possibilidade de uma curiosa operação de tradução que leva em conta seus predecessores mas não localiza neles seus verdadeiros interlocutores, para criar um terceiro Ulysses que nascesse como se primeiro fosse.

10) “Tradução e retradução: leituras e releituras de Memorial de Aires
Luz Adriana Sánchez Segura (PGET/UFSC)
Esta comunicação propõe considerar a retradução de Memorial de Aires (1908), de Machado de Assis, para o espanhol. Trata-se de caso especial na obra machadiana pois, à diferença de outros romances de Machado, este foi traduzido para o espanhol apenas em 2001. Surpreende que, depois de noventa e três anos da sua publicação, apareceram praticamente ao mesmo tempo três traduções para o espanhol em três países: México, Argentina e Espanha. A análise dessas traduções reforça o interesse que a literatura brasileira vem despertando na última década no universo hispano-falante. Porém, o que mais chama a atenção é que os três processos simultâneos de tradução, aparentemente desconhecidos entre si, partilham de uma leitura do romance baseada nas interpretações mais canônicas dele – caracterizadas pelo interesse de corroboração de aspectos biográficos e de fatos da história brasileira. Poder-se-ia dizer que, por isso, as três traduções carregam em o peso da história de interpretação do romance, mais precisamente, da sua leitura mais legalizada. O objetivo central desta comunicação é refletir sobre a retradução como processo de leitura e releitura da obra, susceptível às limitações sensíveis de qualquer experiência.

11) “Transcriações poéticas d’O Sumiço: traduções e retraduções lipogramáticas de poemas de La Disparition, de Georges Perec – e outros”
José Roberto Andrade Féres (UFBA)
La Disparition (1969) é um romance lipogramático de Georges Perec, escrito sem nenhuma letra e, vogal que se apresenta – graças e malgrado a sua ausência – como o protagonista do livro. O romance foi traduzido em onze línguas, mas jamais em português, idioma para o qual estamos traduzindo-o, também sem o e, com o título O Sumiço. No entanto, como nos explica Berman (1994: 85), “toda tradução que venha após uma outra, por mais que seja estrangeira, é, ipso facto, uma retradução”. No caso de La Disparition, isso se torna ainda mais manifesto – e manifestamente problemático –, pois o autor produz e insere, no décimo capítulo do livro, traduções intralinguais de poemas célebres do fim do século XIX, “traduções lipogramáticas” (sem a vogal e) de versos de Mallarmé, Victor Hugo, Baudelaire e Rimbaud. Apoiando-nos em teorias da literatura e da tradução, em estudos da obra de Georges Perec e em traduções estrangeiras de La Disparition, propomos apresentar e justificar algumas das nossas escolhas para as traduções e retraduções de tais poemas, transcriações poéticas que deverão figurar em O Sumiço.

CRÉDITOS DAS TRADUÇÕES

Italiano: Nicoletta Cherobin

Espanhol: Rosario Lázaro Igoa & Luz Adriana Sánchez Segura

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